O rádio e sua capacidade de reinvenção: inesgotável aos 85 anos

Publicado em: 12/08/2007

Se existe um meio de comunicação que atravessou altos e baixos nos últimos 60 anos, vendo-se muitas vezes ameaçado pelo surgimento de outras mídias sem, contudo, perder sua posição consolidada como veículo de informação e opção de entretenimento para uma parcela abrangente da população, esse meio é o rádio.
Meio & Mensagem

O surgimento da televisão, em 1950, fez com que a hegemonia do veículo chegasse ao fim, movimento reforçado ainda, na mesma década, pelo advento do LP, que ganhou força no Brasil e facilitou a difusão da música, antes acessível à maioria da população apenas pelas ondas do rádio.
Diante desse cenário, as emissoras foram obrigadas a redefinir seus objetivos. Nessa reestruturação, passaram a dar mais espaço ao radiojornalismo e aos serviços à comunidade.
Para os nascidos sob os raios da televisão — e mais ainda para os contemporâneos da internet —, é difícil imaginar como o rádio possa ter canalizado as atenções de corações e mentes do País nas distantes décadas da primeira metade do século passado.
No próximo mês de setembro, comemoram-se 85 anos da primeira transmissão do veículo no Brasil. A data também marcará mais um passo decisivo na história dessa mídia, pois, na esteira da celebração, deverá ser assinado o decreto presidencial que institui o modelo de rádio digital nacional. Na quarta-feira, 1/8, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, confirmou que o padrão de rádio digital a ser adotado no País compõe um sistema híbrido, seguindo os modelos americano — In Band on Channel (Iboc), da Ibiquity, para as rádios AM e FM — e europeu — Digital Radio Mondiale (DRM), para as rádios de ondas curtas (OC) —, informação antecipada por Meio & Mensagem On-line no dia 20 de julho.
Mesmo antes dessa transformação iminente, o rádio soube se valer de um atributo hoje em voga: a interatividade.
“Um homem que tenha algo a dizer e não encontre ouvintes está em má situação. Mas estão em pior situação ainda os ouvintes que não encontrarem quem tenha algo a dizer-lhes”
Bertolt Brecht
Difícil querer discutir a interatividade no rádio sem que se considerem as reflexões de Bertolt Brecht (1898-1956), poeta, dramaturgo e ensaísta alemão, a respeito do primeiro meio de comunicação eletrônico da história, que, a despeito da passagem do tempo, parece nunca perder a atualidade.
Brecht imagina o rádio como uma via de mão dupla, mostrando-nos que a hoje denominada interatividade responde a antigos anseios do ouvinte. Trata-se a questão muito mais sob a ótica da sociedade e do relacionamento entre cidadãos do que sob a exclusividade de uma ou outra tecnologia de informação.
Os textos de Brecht contrariam uma visão progressista e lembram que o rádio, antes de ser um meio de comunicação de massa, era um canal interativo de comunicação, que se viu limitado em sua capacidade bidirecional à medida que se constituía o sistema econômico de sua exploração. E poderia ser um excelente meio de entretenimento, dando suporte a diferentes manifestações culturais.
Muitas das potencialidades antevistas — ou sonhadas — por Brecht só agora começam a ser exploradas, mediante a incorporação de novos recursos tecnológicos. E é exatamente a digitalização do rádio que tornará isso possível. Não só o aumento imediato da melhoria da qualidade de transmissão, mas também a multiprogramação e as possibilidades por ela abertas podem confirmar a capacidade de reinvenção desse veículo.
Nos Estados Unidos, as rádios digitais crescem na mesma proporção da popularização do acesso à internet via banda larga ou por rede sem fio. No Brasil, esse passo representa um momento desafiador, que tanto pode significar um salto em termos de audiência e de novas possibilidades de conteúdo quanto um alento em relação à expansão de suas oportunidades publicitárias.


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