O Rádio em São Gabriel, RS – 1

Publicado em: 11/07/2010

Osório Santana Figueiredo*

Já era guri taludo, quando comecei a ouvir falar dos primeiros aparelhos de rádios-receptores que estavam chegando a São Gabriel. Foi lá pelos idos de 1935, e eu fazia confusão com o televisor que aprendera a conhecer, lendo o “Zeca Tatuzinho” de Monteiro Lobato, um pequeno livreto encontrado na caixa do vidro de Biotônico Fontoura, um fortificante até hoje preferido pela nossa gente. Nele apareciam no vídeo, os operários trabalhando nas lavouras, enquanto, da sua mansão, o Sr. Zeca Tatu, gordo, rico, já curado dos vermes que o postaram, doente, esquelético, observava atento as atividades de cada um.

Certo dia à noite (só havia energia elétrica na cidade depois do escurecer), vi um grupo de moleques da minha idade, trepados numa das janelas de uma casa da rua Coronel Sezefredo, a duas quadras da estrada de ferro, todos muito quietos, e pude ver também o que se passava através dos vidros da janela, uma caixa grande, retangular, falando uma voz rítmica, que parecia sair de um visor em forma de meia lua, iluminado, com um carreiro de botões abaixo. Achei aquilo um pouco fantasmagórico e deixei aquele local, como os outros, desconfiado e apreensivo, fazendo as nossas conjeturas. Não compreendíamos em nada aquela enorme caixa de vozeirão musicada.

Vivia-se a época getuliana. Nas ruas, muitos comentavam entre suspeitos e jocosos: – “Esse Baixinho” (assim chamavam popularmente o presidente Getúlio Vargas) é esperto demais. Temos de nos cuidar. Tudo que se fala nas ruas ou até mesmo dentro de casa, o rádio leva quentinho para ele”. Quanta ingenuidade! Tanta ignorância! Mas era assim naquela época. Para não poucas pessoas o rádio era um aparelho de escuta e com quem vivíamos ninguém explicava, simplesmente por ausência de curiosidade da gente mais humilde do nosso meio. Não se falava de uma rádio transmissora, pela qual poderíamos assimilar o estranho engenho falante.

Raras eram as residências do centro da cidade, entre os ricos, que possuíam aparelhos de rádio. Depois começaram a se ouvir falar nas emissoras mais ouvidas – assim comentavam – como a Rádio Tupi do Rio de Janeiro, e algumas de Montevidéu e Buenos Aires.

No ano de 1939/40, quando a Segunda Grande Guerra recém havia eclodido, apareceram de contrabando na nossa campanha, vindos do Uruguai e Argentina, os chamados cataventos movidos pelo vento, marca “Wincharger” (aéreo-dínamo), acompanhados de um aparelho de rádio e uma bateria de seis ou 12 volts. Adquiriam-no os médios e grandes criadores. Foi quando, morando no subdistrito de Batovi, município de São Gabriel, pude entender e aprender o fenômeno do rádio, ouvindo-o na estanciola de um vizinho os noticiários da Grande Guerra Mundial, transmitidos diretamente do Rio de Janeiro. Era um sucesso com comentários os mais variados; porém, verdade incontestável. Mas não faltavam os exagerados, confirmando a velha sentença de “quem conta um conto aumenta um ponto”. Continua.

Colaboração de Ivan Dorneles Rodrigues – PY3IDR
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