O Rádio Esportivo de hoje

Publicado em: 04/05/2008

Em Setembro de 2003 fui transmitir a estréia do Brasil contra a Colômbia pelas  Eliminatórias da Copa da Alemanha em Barranquilla pela Rádio News, hoje Rádio Tupi de São Paulo.
Por Edemar Annuseck

Sábado véspera do jogo a seleção foi ao Estádio Metropolitano Roberto Meléndez realizar o reconhecimento do gramado. Fazia um calor de 40 graus ou mais. Após a prática os jogadores e o treinador Carlos Alberto Parreira concederam entrevista coletiva a imprensa na sala reservada do estádio. Fui dar uma espiada e até cheguei a fazer uma pergunta ao treinador brasileiro. Ao deparar como meu ex-colega de Jovem Pan Wanderlei Nogueira no local ouvi dele uma colocação que ficou marcada. “Nós repórteres viramos pedestais de microfone”.
O que mudou
Wanderlei Nogueira, um dos mais brilhantes repórteres esportivos do rádio brasileiro tem razão. Os repórteres viraram “seguradores de microfone” nas entrevistas coletivas. As entrevistas coletivas formam no quadro de mudanças pelo qual passou o rádio esportivo na última década. A entrevista coletiva em verdade serviu para evitar um maior envolvimento de jogadores, técnicos e dirigentes  copiando o que ocorre na Copa do Mundo e nos jogos internacionais promovidos pela UEFA, FIFA e Conmebol. Nas partidas internacionais os repórteres não tem acesso ao gramado. Ao final dos jogos poderão ouvir jogadores, treinadores e dirigentes na chamada “zona mista” que nada mais é do que o local destinado para as entrevistas coletivas. São designados pelos clubes os que participarão da coletiva e nos jogos internacionais os repórteres precisam retirar antecipadamente uma senha para poder fazer perguntas. A vida do repórter ficou difícil. Trazer uma notícia em primeira mão, fazer uma entrevista exclusiva é complicado. O trabalho é facilitado quando existe uma boa amizade com quem se quer entrevistar. Por imposição ou orientação dos clubes e dos atletas é exigida a marcação antecipada de entrevista. Alguns atletas e dirigentes chegam a exigir o envio por fax ou e-mail da relação de perguntas que serão formuladas.
Mudança de hábito
Quando escrevo aqui nos Caros Ouvintes da falta de qualidade do rádio atual, da falta de comando das emissoras, das terceirizações e da pornografia que se instalou o faço com muita tristeza. Na minha casa durante 40 anos se ouvia rádio dia e noite. Aqui também houve mudança. Fui intimado pelos meus familiares. “Não nos conte mais o que você ouviu, nós não queremos saber, já fizemos a nossa parte”. E olha que meus filhos e minha esposa sempre me apoiaram nas horas boas e más. Ao completar este mês 44 anos de jornalismo esportivo eu também mudei. Quase não ouço mais os programas esportivos. Com raras exceções as rádios viraram um verdadeiro “papel carbono”, até porque as entrevistas são as mesmas e os noticiários também. Falta criatividade em todos os sentidos. Falta produção com script e textos de qualidade. Não se lêem mais os noticiários, é tudo na base do improviso e o acionamento dos repórteres. Estes também mudaram. Transformaram-se em repórteres-comentaristas. E tem os que quando entrevistam fazem perguntas tão longas que acabam respondendo pelo próprio entrevistado. Não culpo os profissionais do microfone por isso. A culpa disso tudo está na formação dos profissionais, na falta de orientação. Hoje é comum encontrar-se no comando de uma equipe esportiva pessoas que nunca atuaram no rádio. Através das amizades conseguem patrocinadores, montam suas equipes e compram os horários das emissoras. Aí se ouvem médicos, vendedores de imóveis, advogados, vendedores de consórcios, políticos, donos de churrascarias, de revendas de carros, empresários de jogadores, ex-jogadores, dirigentes, ex-dirigentes sendo colocados ao microfone para comentar os jogos.
Transmissões
Tenho sido intimado quase diariamente a escrever sobre o que acontece hoje no rádio. “Quero ver se você tem coragem de escrever sobre o rádio esportivo”, alfinetou-me outro dia um internauta. Na briga pela audiência o rádio deixou de lado a seriedade, para apelar. Pitadas de humor, grandes tiradas e piadas sempre houve no rádio, que o digam Fausto Silva, Wanderlei Nogueira, Pereirinha dos que me recordo. Humor como o Show de Rádio de Estevam Sangirardi, Odayr Baptista, Nelson Tatá Alexandre, Serginho Leite, Carlos Roberto Escova e Weber Laganá era gostoso ouvir. Hoje palavrões do tipo “Seo viado”, “Vai tomar no c…”, “O cara falou que você é bicha”, são comuns. Os jovens até 25 anos, segundo pesquisas, adoram esse tipo de comportamento das rádios. Mas será que esses mesmos jovens vão aos estádios. Será que eles ouvem as rádios por causa do futebol ou para ouvir as mensagens pornográficas que enviam pelos torpedos e que são lidos no ar. E tem aqueles que param de transmitir para contar piadas que só eles entendem ou anunciam que depois do jogo tem aquela saideira no boteco do fulano de tal. Gastam minutos e minutos com coisas que não acrescentam nada e esquecem de anunciar o tempo e o placar do jogo. Outro dia fiquei esperei 11 minutos para saber o resultado do jogo que acabara de ser transmitido. No último domingo (27) um locutor relatava numa rádio de Curitiba. “ A bola se perde pela linha lateral. Vai cobrar fulano… esse lance não merece ser narrado, não vai acontecer nada mesmo”. Para em seguida chamar o repórter. E tem até rádio em que o locutor só grita o gol do time local. Quando ocorre gol do time adversário se limita a dizer. “É gol dos homens, fulano marcou para eles”.
Isso me faz voltar no tempo. Lá pelos anos 60, Lauro Soncini na Rádio Guarujá de Florianópolis foi impedido de entrar no Estádio Hercílio Luz em Itajaí, por ter criticado o Clube Náutico Marcilio Dias. Inteligente como só ele, resolveu a situação transmitindo o jogo da janela de um prédio vizinho ao estádio e não deixou por menos. “ Zilton corta para o Figueirense para o meio de campo, a bola volta para o número sete este entrega para o número oito vai para o ataque o time local…”.
Um pedido final. Eu fiz a minha parte contando algumas “coisinhas” do rádio atual. Ouçam vocês mesmos e deixem sua opinião no meu blog ou nos meus e-mails. Gostaria de saber o que pensam. É isso aí. 


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