O RÁDIO NO BRASIL

Publicado em: 10/10/2006

Oficialmente a primeira transmissão de rádio no Brasil ocorreu no Rio de Janeiro, como parte das comemorações da Independência, levando ao ar o discurso do presidente Epitácio Pessoa a partir de um transmissor de 500 watts, instalado dos altos do Corcovado, em 7 de setembro de 1922.
Por Estela Kurth

Cerca de 80 receptores teriam sido especialmente importados para a ocasião. Esta primeira emissora ainda transmitiu alguns espetáculos de ópera, apresentados no Teatro Municipal, mas sucumbiu à falta de um projeto mais adequado àqueles primeiros tempos.
No início dos anos 1920 surgiram as primeiras rádio-clubes com finalidade de divulgação cultural e musical, principalmente música erudita. A exemplo da Grã-Bretanha, o ouvinte pagava uma taxa pela utilização das ondas sonoras. A primeira iniciativa foi de Roquette-Pinto e Henrique Morize, em abril de 1923, através da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Naquela época a legislação proibia anúncios pagos, de forma que não havia publicidade. As transmissões eram freqüentemente interrompidas por problemas técnicos, e a programação não preenchia todos os horários do dia. Durante toda a década operavam apenas 19 emissoras em todo o país, e a maioria dos receptores era de galena.
A década de 1930 iria ser de grandes transformações rumo à profissionalização e uso efetivo do rádio como veículo comercial. Todas as inovações que levaram o rádio ao auge na década de 1950 foram feitas ainda nos anos trinta. Gisela Ortriwano considera que o impacto do rádio sobre a sociedade brasileira está relacionado com a dificuldade de penetração dos jornais, que se mantinham eruditos e distantes da população, devido ao grande percentual de analfabetos. O argumento pode estar correto, pois, de acordo com o Censo Brasil, na década de 1940 os analfabetos representavam 51% da população brasileira, somando 41.236.315 pessoas. Em 1950 o quadro melhorou um pouco, mas o analfabetismo atingia 47% dos brasileiros, ou 51.944.397 pessoas.
Os primeiros profissionais de rádio seriam chamados de programistas. Sozinhos eles faziam os contatos comerciais, a redação, a produção e a apresentação dos anúncios. O rádio sofreria um grande incremento no Brasil, em 1932, com a introdução dos receptores à válvula e a regulamentação que permitia 10% de inserção de publicidade diária na programação. Este fato mudou a característica do negócio, com a rápida ampliação da estrutura empresarial e a especialização das funções. Com a introdução dos “reclames” o erudito deu lugar ao popular e o rádio foi ganhando cada vez mais uma dimensão comercial. As radionovelas foram introduzidas em 1941 com grande sucesso. Nesta nova perspectiva, o rádio começou a operar dentro de um sistema de concorrência, que privilegiava a audiência, com disputas acirradas. A linguagem se tornava mais direta e coloquial e os programas seguiam uma grade de horários definidos, a fim de criar hábitos. Grande ênfase foi dada a uma programação eclética, que buscava públicos diferenciados, apelando às emoções dos ouvintes. Este período é denominado por Gisela Ortriwano de “criatividade radiofônica”.
A grande novidade da década foi a Rádio Record, que implementou uma série de pioneirismos, alcançando a liderança da audiência. Em 1934, a Record se tornou a primeira rádio a operar em cadeia, e também a primeira a abrir o microfone para políticos, inaugurando a propaganda política no rádio. Outra inovação foi o contrato de remuneração mensal para artistas, fato que seria copiado por muitas outras rádios, mesmo menores, e que daria início ao processo de contratação a “preço de ouro” de alguns astros e estrelas.
Ainda na década de 1930 surgiriam duas outras importantes emissoras. Em 1935, a Rádio Jornal do Brasil iniciava o radiojornalismo, com um estilo inovador de tratar a informação. Em 1936 surgiu o que se tornaria um marco na história do rádio brasileiro, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro – uma organização administrada nos moldes de uma instituição burocrática para controlar 124 músicos, 33 locutores, 55 radioatores, 39 radioatrizes, 52 cantores e 44 cantoras, 18 produtores, 13 repórteres, 24 redatores, seis estúdios, um auditório para 500 lugares e cerca de 240 funcionários na administração deste gigantesco empreendimento. A Rádio Nacional irradiava sua programação através de quatro transmissores, dois de ondas médias (25 e 50 kw) e dois de ondas curtas (cada um com 50kw), alcançando, além do território nacional, Estado Unidos, Europa e África.
A década de 1950 seria de grande desenvolvimento para o rádio. Em 1952 a permissão para a publicidade diária foi ampliada para 20%. Contudo, um dos fatores mais significativos para o crescimento do rádio no país, neste período, seria o processo de industrialização com a entrada de grandes multinacionais. A inexistência de um setor de publicidade estruturado no Brasil levou as recém-chegadas multinacionais a trazerem consigo agências de publicidade do país de origem, na maior parte norte-americanas. Estas agências iriam interferir tanto no rádio como, posteriormente, na televisão, a ponto de assumirem a responsabilidade total pela produção de programas, incluindo desde a contratação de atores, técnicos e diretores até a definição dos roteiros.
Raymond Williams considera que este movimento das agências de publicidade foi muito mais que uma simples conseqüência de um mercado publicitário incipiente em países em desenvolvimento. O autor entende o fato como uma opção clara de controle, dentro dos interesses norte-americanos durante a Guerra Fria. Este período, compreendido entre o lançamento das bombas atômicas e o fim da União Soviética, foi marcado pela forte oposição entre as duas nações que saíram vitoriosas da Segunda Guerra, Estados Unidos e URSS.
 
A comunicação como arma política seria utilizada amplamente pelos Estados Unidos. Uma das ações mais evidentes foi a atuação da Agência de Informação (USIS). Esta tinha transmissores próprios e produzia programação de caráter ideológico, especialmente para recepção fora dos Estados Unidos. Muitos países que recebiam a programação não desconfiavam que a autoria era do governo norte-americano, pois muitos produtos não eram identificados como da USIS, quando transmitidos em áreas não controladas pelos norte-americanos ou por estações não financiadas por estes.
Fontes de consulta:
ORTRIWANO, Gisela Swetlana. A informação no Rádio: os grupos de poder e a determinação dos conteúdos. São Paulo: Summus Editorial, 1986, p. 13.
IBGE. Censo Demográfico, população e habitantes: quadros de totais para o conjunto da União e de distribuição pelas regiões fisiográficas e unidades federadas. Rio de Janeiro, 1950. V. 2, p. 28.
ORTIZ, Renato. Moderna Tradição Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 2001, p.38-44.
Estela Kurth é jornalista com vivência em marketing de empresas de comunicação, forte experiência em realização audiovisual e ensino de Comunicação. Doutoranda. Área de concentração: Comunicação, Cultura e Tecnologia pela Pontifícia Universidade Católica do RS – Porto Alegre, RS e Mestre em História pela UFSC / Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH) – Florianópolis, SC.


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