O Santo já era tão popular como o futuro agente 007

Publicado em: 10/01/2009

Roger Moore. No Inverno de 1964, o actor britânico, que pisava Portugal pela primeira vez, ainda não tinha substituído Sean Connery no papel do mais famoso agente secreto de sempre. Por Fernndo Madaíl (*).

E, no entanto, rosto clássico na televisão, já era tão conhecido no país de Salazar como no reino da Rainha Isabel II. A polícia teve de reforçar o dispositivo de segurança para conter os fãs dos autógrafos.

O Santo, para as gerações mais novas, pode chamar-se António ou João, conforme a cidade onde lhes garante feriado e folia, mas nunca Roger Moore, o sete vezes 007. Alguém que tenha menos de 45 anos dificilmente percebe por que motivo a foto do actor britânico surge associada, no DN de 5 de Janeiro de 1964, ao título “O ‘Santo’ obrigou a polícia a montar um serviço especial para conter os entusiastas”. E, no entanto, naquele tempo, em que o espião saído dos livros de Ian Fleming para os ecrãs de cinema tinha a cara de Sean Connery, tanto no reino de Isabel II como no país de Salazar há muito que Roger Moore era famoso.

“Figuras da Imprensa, Rádio, Televisão e Cinema reuniram-se ontem, num beberete, oferecido pela Radiotelevisão Portuguesa, num dos principais hotéis de Lisboa, a fim de lhes ser apresentado o artista Roger Moore, principal intérprete de séries famosas que a RTP tem apresentado.” O primeiro dos quatro parágrafos da notícia não explicava aquilo que se lia num anúncio: “A RTP apresenta, no programa Selecção Policial, O Santo, entrevistado pelo dr. Varatojo” – também conhecido por inspector Varatojo, que, depois de apresentar sete anos o ABC do Crime, esteve oito anos na grelha televisiva com Selecção Policial.

“A figura, já lendária, do Santo e primeiro intérprete da série Ivanhoe, que os espectadores da TV tanto apreciam, criou ontem, à sua volta, um ambiente de grande interesse, por parte de cineastas, ‘detectives’ amadores e muitos – e, sobretudo, muitos… – admiradores.” Apesar de não ter passado pela cabeça do jornalista esclarecer a que se estava a referir, pois qualquer leitor da época o entenderia, convém explicar que O Santo (The Saint) foi uma série inglesa produzida, de 1962 a 1969, a partir dos livros de espionagem de Leslie Charteris, e em que Moore interpretava a personagem de Simon Templar (o Santo). Entre os realizadores dos 118 episódios surgem cineastas como Peter Yates e, na lista de actores convidados, há nomes como Julie Christie ou Donald Sutherland. Antes, Roger Moore já tinha desempenhado o papel de Sir Wilfred em Ivanhoe, a série adaptada do romance de Walter Scott. Mais tarde, ao lado de Tony Curtis, participaria em The Persuaders.

Mas voltemos à notícia do DN. “Na sala do hotel onde se fez a apresentação do famoso artista houve boa disposição e fizeram-se muitas fotografias e perguntas.” Quais foram as interrogações? E as respostas? Não se sabe… O melhor é ler uma passagem da notícia da véspera, ilustrada com uma fotografia tirada no aeroporto. “Festivamente recebido, declarou-se encantado por se encontrar em Portugal, que visita pela primeira vez, e ainda pelo sol radioso que fazia e o deslumbrou, forçando-o a perguntar se era assim sempre o Inverno no nosso país.” De novo, o jornal do dia 5. “Cá fora, na rua, o interesse do público foi tão grande que a polícia teve de montar um serviço especial de ordem, para conter os numerosos fãs, de ambos os sexos, da vedeta, que, à força, queriam autógrafos.”

No dia seguinte, no que hoje se designaria por prime time, a RTP transmitia, em Selecção Policial, um episódio da série O Santo e uma entrevista com Roger Moore conduzida por Artur Varatojo. E parece ter-se criado tal amizade entre ambos que Varatojo levou o actor a um espectáculo tauromáquico com o matador Manuel dos Santos e recebeu fotos autografadas por O Santo, cujo bólide apreciou numa visita a Inglaterra. Há poucos anos, entrevistador e entrevistado da década de 60 juntavam-se num programa de Herman José. Que santo! 
 
 (*) Escreve no Diário de Notícias de Lisboa, PT

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