O sonho acabou

Publicado em: 10/03/2013

No final dos anos de 1970, o compositor Tavito sonhava, na canção “Rua Ramalhete”: “Será que algum dia eles vêm aqui, cantar as canções que a gente quer ouvir?”.
Falava da esperança que os fãs brasileiros ainda acalentavam de ver os “Beatles” reunidos, numa turnê pelo Brasil! Para o mundo já seria suficiente a volta da banda, desfeita em 1971, por desavenças internas.
Eu tinha onze anos quando Lennon proclamou: “O sonho acabou!”. Mesmo assim, foi um choque, pois eu havia crescido ao som de seus sucessos e assistido: “Os Reis do Iê-Iê-Iê”, “Help” e o psicodélico e experimental “Submarino Amarelo”. Sem saber, eu era “beatlemaniaco”! Além disso, eu fico extremamente chateado com separações entre pessoas que eu gosto, mesmo que elas nem saibam que eu existo. Só que isso é extremamente comum no mundo artístico! Acho que é por isso que eu admiro tanto os “Rolling Stones”…

Yoko Ono, ao que consta, foi o pivô da separação, o pomo da discórdia! Mas, será que a culpa foi só dela?
Bem… É fato que Lennon empurrou-a pela goela abaixo de Paul, George e Ringo. Francamente, não fazia o menor sentido sua presença, imóvel e silenciosa, nos videoclipes do grupo! E mesmo quando dançava, não acrescentava quase nada… E daí? George já havia perturbado a “ordem”, com seu guru indiano. Paul poderia ter sido o primeiro a sair, quando quase morreu, por excesso de drogas! Em suma, as relações já estavam para lá de desgastadas. Para piorar, o rock progressivo ganhava força, com seus grandes solistas e performances cênicas: “The Who”, “Led Zeppelin”, “Focus”, “Pink Floyd”, “Yes”, “Genesis”, “Black Sabbath”…

Isso colocou os Beatles em cheque, apesar do experimentalismo e ousadia dos últimos discos. Para piorar, Lennon estava tão fascinado com Yoko, que “Get Back” não lhe dizia nada… Seria amor ou fuga? Não sei, mas Lennon encontrou inspiração para escrever “Imagine” e “Woman” com ela ao seu lado… Mas, também gritou “Mother!”.
Eles também se separaram, em 1973. Pareceu que John ficou oco, sem Yoko… Coube a Elton John, que cantou sua “One Day at Time”, se fazer de cupido para reuni-los, em 1975. Juntos, fizeram protestos na cama e levantaram bandeiras político-humanitárias. Nesse âmbito, Lennon e Yoko souberam usar a mídia como poucos! Enquanto isso, os encontros musicais e cooperações entre ex-“Beatles” ocorreram, esporádicos, mas nunca com Paul e John. A dupla que compôs algumas das maiores obras-primas do rock parecia irreconciliável! E a vida prosseguiu, com a gente torcendo para que o tempo curasse as feridas. Diz o ditado: “Enquanto há vida, há esperança!”…

Só que, num frio dezembro, um indivíduo tirou a vida de John…
Uma vítima da idolatria tirava a vida de um ídolo! Se de um lado é verdade que a fama pode subir à cabeça, o fanatismo pode deixá-la completamente vazia.

Foi ali que realmente o sonho acabou!
Tempos depois, tentaram fazer o mesmo com George, que escapou por pouco.
Ironicamente, vários anos depois, a tecnologia permitiu a reunião dos Beatles para gravar “Free as a Bird”, de Lennon, com a voz dele “mixada” ao instrumental e “backing vocal” de Paul, George e Ringo. Para aumentar a nostalgia, o videoclipe mostrava cenas de Liverpool, onde tudo começou.
A morte costuma transformar ídolos em lendas, sobretudo nos meios artísticos. Temos os exemplos de Hendrix, Morrison, Vicious e, mais recentemente, Cobain. Mas eles jogaram suas vidas fora! Lennon, no entanto, teve a sua “roubada”, o que torna sua perda ainda mais lamentada.

Aquele sonho acabou, mas ninguém que tivesse mais o que fazer morreu por causa disso!
Continuo ouvindo os “Beatles”, Paul, Lennon e George, mas acredito que gostar da obra de um artista não implica considerá-lo perfeito, insofismável ou em imitar seu modo de vida até em seus aspectos mais negativos.
É curioso, mas a admiração que sinto por um artista está na sua capacidade de extrair “perfeição” de sua imperfeição!
O ideal seria aprender a admirar a obra, sem venerar o artista! Mas, infelizmente, algumas pessoas se dão tão pouco valor, que se entregam a uma devoção também autodestrutiva.

Lennon faz muita falta! George também! O mesmo vale para Fred Mercury, Renato Russo e, agora, Chorão…
Talvez John ainda estivesse vivo se, em vez de sonharmos os sonhos dos outros, aprendêssemos a sonhar os nossos e, principalmente, acreditássemos neles; se, em lugar de seguir as trilhas tortuosas ou exemplos torturados de quem se sente perdido, mesmo tendo alcançando o que acreditava ser sua meta, tentássemos encontrar nossos próprios caminhos e vivermos nossas próprias experiências.

Viver, ainda “é melhor que sonhar”, como afirmou Belchior! E “não adianta fugir, nem mentir pra si mesmo!”, cantou Lulu Santos.
Só não tem solução a morte! E a morte não é solução!

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