O Substituto

Publicado em: 09/06/2013

Assisti, recentemente, o filme “O Substituto” (Detachment, EUA, 2011).Ele é ambientado numa cidade do EUA, numa escola pública de nível acadêmico equivalente ao nosso Ensino Médio. Impossível não associá-lo a outros dois filmes anteriores: “Entre os Muros da Escola” (Entre les murs, França, 2008) e “A Onda” (Die Welle, Alemanha, 2008), igualmente ambientados em escolas públicas de seus países de origem. Aliás, se juntássemos os atores adolescentes, seria impossível diferenciá-los.

Tempos atrás, havia uma visão romântica sobre os relacionamentos: aluno-escola e aluno-professor, na qual os “mocinhos” – bons alunos e professores inovadores e comprometidos – sempre venciam, no final.

Era o caso de filmes como “Ao Mestre, com Carinho” (To sir, with love, Reino Unido, 1967), onde até a música contribuía para a mensagem positiva, com destaque para o encontro de si próprios, descoberta de potenciais, projetos de vida… Enfim, esperança!

Estudei em escolas públicas a partir desse mesmo 1967. Nelas, cursei: Primário, Ginásio e Segundo Grau Técnico, equivalentes aos ensinos: Fundamental e Médio atuais. Lá, zelávamos pela escola, inclusive em períodos de férias, quando, sob coordenação de funcionários e da atuante Associação de Pais e Mestres, lixávamos mesas e lavávamos salas e pátios, preparando o ambiente para o reinício das aulas.

Havia, claro, os declarados ou potenciais bandidos, corruptos e vagabundos. No entanto, ali, muitos encontraram suas vocações e sonharam com dias melhores! Não parece ser o quadro que vemos hoje, pelos noticiários: Afora alguns “oásis”, o que se vê é alienação institucionalizada, celebração da violência e da mediocridade, turbinada por noções deturpadas de liberdade, sucesso e cultura de massa. Multiplicam-se professores desencantados e, não raro, amedrontados. Também há os despreparados, alguns dos quais adotaram a docência não por opção, mas por falta de opção, às vezes recorrendo ou recaindo no vício, como forma de “esquecer”.

Esse contexto também emerge nos três filmes inicialmente mencionados, o que sugere que são globais, pois todos se passam no Hemisfério Norte, em países considerados desenvolvidos, política e economicamente estáveis. É fato que o protagonista, professor substituto – interpretado pelo “oscarizado” Adrien Brody, cuja expressão naturalmente triste fica ainda mais dramática em sua atuação -, já carrega, em si, traumas imensos. Ao mesmo tempo em que se apega à missão de mudar a forma de pensar dos alunos em relação a si próprios e ao mundo que os rodeia, não consegue se estabelecer ou relacionar, mesmo que haja essa possibilidade.

Sua dor existencial rompe os limites da tela, irradiando sua angústia com se o filme fosse uma projeção 4D.
Ao seu redor, orbitavam jovens sem referências ou ambições positivas, familiares ausentes ou “distraídos”, falta de ambição ou de sonhos com dias melhores.

Ele catalisa os problemas do meio, ao mesmo tempo em que tenta desesperadamente mudar, nos outros, o que não consegue, em si. Daí, a natural inconstância de sua função, apesar de poder ser compreensível como fuga sistemática, também o torna um semeador itinerante de esperanças: mais que um sacerdote, um missionário!

Por tudo isso, “O Substituto” talvez merecesse outro título em português, emprestado de um outro filme: “A Soma de Todos os Medos”. O original, abordava um atentado nuclear e o risco de uma guerra mundial, com a consequente destruição intencional de duas grandes potências. Não é preciso de uma tal catástrofe!

A destruição da juventude e a frustração de quem deveria formá-la – e que não está lá para substituir pais e mães! – está causando um efeito muito mais dramático e perene! Todos esses filmes, apesar de extremamente tristes e desalentadores, devem ser vistos obrigatoriamente por todos os envolvidos com educação e política. Pais, inclusive!

Mas, isso desde que seja para refletir… mudar… substituir modos, métodos e visões arcaicas! Porém, se essa triste confusão entre vida e arte for um projeto de dominação das elites, vê-los só servirá para que seus mentores comemorem os ótimos resultados desse crime hediondo, genocídio de gerações, que condena a juventude a ser mera consumidora de “lixo” barato e falsas aparências, a não querer ascender honestamente na vida, a não dar nenhum valor ao semelhante; a matar e morrer cedo, de forma totalmente amoral, como uma bola de neve, montanha abaixo!

Adilson Luiz Gonçalves
Membro da Academia Santista de Letras
Mestre em Educação
Escritor, Engenheiro, Professor Universitário e Compositor
Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento)
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Conheça as músicas do autor em: br.youtube.com/adilson59

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