O violeiro de Paulo Clóvis

Publicado em: 21/05/2016

Seu berço era a Paulicéia, numa época em que os paulistas ainda não haviam devassado a Ilha. Casado com uma manezinha de boa cepa, adotou a cidade com raro gosto e entusiasmo.

logo clube do violeiro 2Bom de padrinhos, empregou-se no governo e no melhor diário local, ainda jovem, mas com a experiência das coberturas esportivas de São Paulo, das primeiras greves nos jornalões e com um quê de boêmio que batia de frente com o status de homem sério que se tornara, pelos novos laços que exigiam discrição na vida social. Mas a música, essa estava no sangue, e quem vinha da terra de Adoniran não poderia renegar a origem…

O trabalho terminava ora cedo, ora na madruga, dependendo das circunstâncias que fazem um jornal pulsante e líder na praça. Espirituoso, amigo da melhor qualidade, puxava um sambinha nos botecos que a raça elegia como os da vez, sempre com o dinheiro contado porque a profissão podia ser estimulante, mas nunca de boa paga. Havia a turma do “bambuzal” – aqueles que trocavam as Remington no meio da tarde pelo baseado que equilibrava as coisas e maneirava o estresse da atividade. Nosso violeiro não era disso; no máximo, encarava uma cerva na cantina anexa à redação.

Numa bela sexta-feira, virando para o sábado, ele puxou o som até as quatro da matina, ajudou a fechar o bar e tomou um táxi até em casa, no outro lado da ponte. Chegou, pé ante pé, e amochilou-se na cama quentinha, rezando para não acordar a mulher. Foi quando deu o estalo: caraca, tinha ido trabalhar de carro e este ficara no boteco, à espera de resgate! E agora? Como explicar a garagem vazia àquela altura dos acontecimentos?

A solução foi levantar, pé ante pé, pegar outro táxi e voltar para a boca, a essa altura deserta, com o dia amanhecendo, para trazer o bólido – um Chevette amarelo – de volta. Não me perguntem o fim da história, porque esta se perdeu nos escaninhos da memória, ou talvez nem tenha sido revelada por inteiro. O fato é que o sujeito contornou a situação e, prova de que era inocente, está até hoje, mais de 30 anos depois, com a mulher que sempre conheceu o seu lado festeiro e soube administrar essa condição. Tem duas filhas, uma delas jornalista, e continua de alto astral, já aposentado das teclas, mas não da viola e das pescarias no Mariscal.

É desses caras que, mesmo após anos sem contato, vai te abraçar e puxar conversa como se os tempos de pautas diárias tivessem acabado ontem, na imensa camaradagem que o jornalismo permite, como a compensar o ganho curto e todos os vícios que maculam, hoje, a profissão.

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