O voo da morte

Publicado em: 28/05/2014

No céu azul do Rio, de beleza inigualável, vemos muitos voos.

Voam os pássaros sobre a orla, desde o Recreio ao Leme. Quando se avizinha o pôr-do-sol, voltam do mar e sobrevoam as praias, as ruas, os edifícios, as casas, buscando o rumo do que resta da floresta tropical, procurando as árvores do descanso noturno.

As gaivotas, sobranceiras, voam também por sobre o mar, dando rasantes sobre os barcos de pesca que aproam em busca das praias em Niterói. Rápidas, riscam o azul com sua brancura em volteios que parecem uma dança de alegria.

Voam os urubus, primos feios, que a quase todos repugnam. Sobrevoam os lixões em busca de alimento, esses mesmos lixões onde gente andrajosa procura a fonte mínima de sua sobrevivência. De um negror profundo, com seus pescoços pelados ressaltando a feiúra, abrem asas sobre a podridão.

Voam os pombos entre os prédios da cidade, onde se aninham e contaminam os dutos de ar, que acabam fazendo adoecer burocratas engravatados, supostamente protegidos em seus escritórios-casulos com ar condicionado. E povoam as praças, onde o milho espalhado por aposentados os atrai, causando também revoadas quando o andar apressado dos passantes os assusta.

Voam rolinhas suburbanas – hoje mais raras -, que acabam por pousar no fios das ruas onde crianças ainda brincam, soltam pipas e fazem alarido.

Voam borboletas sobre jardins em quintais – mais raros hoje também, as borboletas e os quintais.

Voam mosquitos, antiga mazela que há séculos assola a cidade, e assolará enquanto houver sujeira, precariedade dos esgotos, valas negras e burrice que produz e espalha a sujeirada. E agora voam igualmente os temíveis mosquitos da dengue, ameaça cada vez mais frequente, avassaladora e mal combatida.

Voam os aviões, chegando tomjobinianamente ao Galeão, ou sobrevoando a Baía de Guanabara para aterrar no Santos Dumont (Isto quando não há apagão aéreo, claro). Como pássaros de prata, cruzam o céu, levando em seu bojo quem pode pagar por uma viagem rápida e confortável – hoje em dia cada vez mais gente, especialmente quando o baratear equivale à substituição das refeições de bordo de outrora pelas indefectíveis barras de cereal.

Porém, agora, um voo terrível se vê cada vez mais nos céus do Rio. É o voo da morte, o voo das balas perdidas.
Nas manhãs ensolaradas ou nas tardes calorentas, as balas cruzam o ar, trazendo o pavor a moradores e transeuntes. O rá-tá-tá sinistro, antes visto somente nos filmes ou nas guerras mostradas pela TV e travadas em terras distantes, entra nos ouvidos e leva o terror aos corações. Essa sinfonia do medo pode ser ouvida em qualquer esquina onde um banco está sendo assaltado, uma perseguição está em andamento, uma fuga está sendo tentada.

Nas noites, os projéteis traçantes riscam o céu com seu fulgor intenso. O luar prateado que iluminava os barracos idílicos das canções populares cedeu lugar ao fogo da morte que incendeia o céu.

Nas favelas – eufemisticamente agora chamadas “comunidades”, como se o problema não fosse social, mas de denominação – e nas vias expressas, as balas voam a toda hora, apavorando, ferindo e matando. E os moradores são os primeiros reféns desse inferno urbano.

Enquanto os pássaros e insetos voam com seus esqueletos anatomicamente preparados para flanar com leveza no ar, as balas de aço, duras, resistentes, perfurantes, rodopiam em sua trajetória de destruição. E as dizemos “perdidas”.

Balas perdidas voam pela cidade. E onde elas se “acham”? Na cabeça da meninazinha frágil, que escorrega para sempre do colo da avó sob o impacto do projétil; no peito do trabalhador que acordou com o sol para ir em busca de um salário-mínimo; nas costas do rapazola confundido com o inimigo da outra gangue; de encontro à coluna vertebral da universitária, antes uma bela e ágil moça, hoje presa de um corpo imobilizado…

Voam as balas com seu zumbido mortal. Atravessam corpos, concreto, madeira, aço, num furor destrutivo movido pelo ódio, pela ambição, por tudo que é desumano.

Ah, Rio, e outras cidades, de beleza, magia, lugares antes inigualáveis para se viver! Quando veremos novamente em seu céu apenas o voo dos pássaros? Quando cessarão o ruído e o pavor trazidos pelo voo da morte?
Por enquanto, além das balas, apenas nossa esperança voa, voa, voa em busca da paz.

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