Obrigado, ‘mô pombo’!

Publicado em: 23/01/2013

Memória | Tributo ao mané Aldírio Simões de Jesus

Carlos Damião

Jorge (E), Aldírio, Ori e Zininho. Divulgação

É difícil escrever num tom impessoal – como recomenda a regra jornalística – quando se trata de reverenciar um amigo, com quem tive o privilégio de trabalhar durante quatro anos e de quem recebi extraordinárias demonstrações de carinho ao longo de mais de 20 anos. Estivemos juntos há três dias, no enterro de outro manezinho de primeira hora, o Miro, velho companheiro de tantas jornadas. Achei que o Aldírio estava meio triste. Mas quem não estaria, naquele clima de comoção que tomou conta de todos durante o enterro do Miro?

A Ilha de Santa Catarina perdeu duas de suas personalidades mais alegres, solidárias e encantadoras num espaço de apenas três dias. O Miro, que andava doente desde 1998 e estava internado havia 19 dias no Hospital de Caridade, não chegou a surpreender a cidade. Todos sabíamos de seu estado de saúde delicado, motivado por uma vida intensa, como bem lembrou outro manezinho, o Paulo da Costa Ramos (PCR), em sua coluna de O Estado. Agora, o Aldírio, no vigor de seus inacreditáveis 62 anos (como a tua aparência jovial desmentia a tua idade real, ô istepô!), é uma notícia mais difícil de se receber e assimilar.

O que aproximava Miro e Aldírio é um termo francês – bon vivant – que encontra uma tradução ruim para o português. Dizer que eram boas vidas não é o termo correto, porque no nosso idioma essa expressão tem um sentido pejorativo. O ” do francês é um sujeito que sabe viver, que vive bem apesar das dificuldades do cotidiano. Miro tornou-se colunista por acaso e engajou-se com seriedade nessa missão, embora vez ou outra se deixasse levar pelas longas noitadas e perdesse a noção de disciplina. Aldírio planejou sua vida profissional dos últimos anos em torno de uma coluna – primeiro em O Estado, depois aqui no ANcapital -, voltada ao folclore, à gozação, ao estado de espírito do manezinho, que tão bem soube encarnar ao longo da vida. Por onde andassem, das rodas do Mercado Público aos cenários mais sofisticados, os dois mereciam respeito e admiração de todos, até dos mais ferrenhos críticos de suas colunas.

Feitos os paralelos, motivados pela sequência das perdas, mais duas ou três lembranças do Aldírio. Uma delas: a impossibilidade de dissociá-lo do ANcapital e de uma personalidade que ajudou a construir o suplemento de A Notícia, o português Henrique de Carvalho. Quando chegou à cidade, com a missão de dirigir a sucursal, Carvalho encontrou em Aldírio um suporte fundamental para “entrar no clima” florianopolitano. Tornaram-se amigos inseparáveis, frequentando todos os ambientes da Ilha, francamente abertos para o generoso lusitano mediante um simples gesto de Aldírio. Foi por causa do colunista que Carvalho acabou incorporado à condição de manezinho, com a vantagem de encontrar na Capital muito mais referências físicas e culturais de sua terra natal do que em Joinville, onde vivia até 1997.

Outra lembrança é o Carnaval: vê-lo no comando da nossa festa maior, nervoso, enroscado nos fios das emissoras de televisão, brigando com assessores e técnicos, era a confirmação de que se tratava de um homem sério, que encarava o trabalho com valentia, embora fosse, de verdade, um sujeito boa praça, brincalhão, de bem com a vida.

Sabê-lo morto dói demais no coração dos manezinhos. É impossível não voltar a se emocionar, apenas três dias depois da morte do Miro, lamentando mais uma ausência, numa capital que perde sua identidade de forma progressiva e inapelável – de uma maneira que nenhum dos dois gostava, por causa do rápido desaparecimento das referências locais.

Mas valeu a tua luta, mané! Tinhas a convicção de que alguma coisa – um exemplo, uma história, uma paixão, uma pessoa, uma expressão típica – sempre fica na memória da cidade. E como fica, “mô pombo”!

Carlos Damião, jornalista

Joinville, sábado e domingo 31/12/2005 e 01/01/2006 | A Notícia | AN Capital Especial | Morre Aldírio, um autêntico manezinho.

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