Olá! Bem vindo Ricardo

Publicado em: 16/12/2004

Ricardo Medeiros, a partir de hoje entra também de corpo total na faina diária do site partilhando a editoria e escrevendo para os nossos Caros Ouvintes. Hoje ele fala um pouco do muito que precisamos para continuar buscando, identificando e disponibilizando a história construída pelos nossos Astros e Estrelas do rádio.

Sinto falta deles
Por Ricardo Medeiros

Momento de confraternização na casa de Dakir Polidoro, na praia de Ponta de Baixo, em São José, no final da década de 1950. A partir da esquerda: Alda Jacintho (radioatriz), Edgard Bonassis da Silva (locutor), Edi Santana (cantora), Sílvio (piston), Álvaro (trombone), Neide Maria (cantora), Tereza Maria (radioatriz, irmã da Neide), Tida (bateria), Aldo Gonzaga (piano), Demaria (contrabaixo), Luiz Flávio (cantor), Zequinha (violão), Janine Lúcia (radioatriz), Félix Kleis (radioator) e  Jairo Silva (cantor).

Exilo-me  temporariamente no Velho Continente, na cidade francesa  de Le Mans (a 200 quilômetros de Paris) para fazer doutorado na área de rádio, abordando as radionovelas em Florianópolis durante os anos 1960, precisamente às veiculadas na antiga Rádio Diário da Manhã. Mas por que sair então de Floripa, para do outro lado do oceano atlântico, falar sobre nossa terra? Breve parêntese. Vera Dias, minha esposa, gostaria igualmente de fazer uma tese e escolheu aquele país para desenvolver um trabalho acadêmico de comparação de habitação popular entre Florianópolis e Le Mans.

A chegada a Florianópolis se dá  no dia 20 de novembro, uma tarde ensolarada de sábado que me permite acompanhar as belezas naturais da Ilha e a fidelidade da torcida  do Avai que joga na Ressacada contra o Brasiliense  sonhando com a série A do campeonato brasileiro de futebol.

Neste retorno à cidade sinto falta de pessoas que me ajudaram a fazer uma das possíveis leituras sobre as radionovelas. Figuras que viveram intensamente o meio radiofônico durante as décadas de 1940, 1950 e 1960 e que me relataram essas experiências através de seus depoimentos.

Na verdade, ao conhecê-las já comecei a  perdê-las. Foi o caso da pequena e grande atriz Cacilda Nocetti. No ano de 1997 fui até a casa dela no Abraão para termos um “dedo de prosa” a respeito dos folhetins eletrônicos. Dias depois soube que a estrela da RDM havia partido, como dizem os franceses, para o outro lado do espelho. Foi quem sabe se encontrar com um dos seus parceiros de cena, como  Oscar Berendt, com quem formava uma dupla imbatível para encarnar preto-velho e preta-velha.

Hélio Teixeira da Rosa, radioator e maestro, é outro que deixa saudades. Fiquei maravilhado com sua trajetória no ramo radiofônico, tanto em Florianópolis como em Joaçaba, meio oeste catarinense. Em 2002, em uma passagem rápida pelo Brasil para fazer pesquisa de campo para a minha tese, ligo para a sua casa. Falo com dona Reinalda, esposa de Hélio Teixeira. “Bom dia, eu me chamo Ricardo Medeiros, jornalista. Eu gostaria de falar com o senhor Hélio Teixeira, por favor”. Indignada com a minha ‘audácia’ dona Reinalda vem à carga : “Mas quem é mesmo que quer falar com o meu marido?” ‘Ricardo Medeiros’, respondo novamente. Dona Reinalda é então direta: “ele já morreu senhor”. Senti neste momento um vazio. Fiquei em silêncio por alguns segundos. Em seguida, desculpei-me com a dona  Reinalda dizendo-lhe que não sabia do falecimento de Hélio Teixeira.

Meses antes de retornar em definitivo ao país tomo conhecimento que a radioatriz Alda Jacintho também nos deixou em agosto. Radioatriz de primeira linha ela era das integrantes do cast da RDM que recebia freqüentemente cartas de todo os cantos, como a de sua fã de Brasília, Celina Maria de Rezende, que em 15 de setembro de 1965 não poupa elogios aos personagens da manezinha Alda Jacintho: “Adoro você em todos os papéis que vives nas novelas! A queridíssima Cacilda! A Lavínia correta! A buliçosa Hilda! Todas perfeitas! Parabéns queridinha! Desejo de todo coração o teu sucesso, a tua glória!

Ao pisar em solo florianopolitano, soube de mais uma baixa. O maior escritor de radionovelas de Santa Catarina havia falecido: Gustavo Neves Filho. Um homem que tinha em sua bagagem 53 novelas e um número incontável de peças completas.

Vivemos constantemente numa corrida contra o relógio para colhermos depoimentos de pessoas como Cacilda Nocetti, Hélio Teixeira, Alda Jacintho e Gustavo Neves Filho. Gente que simboliza a história do rádio e da cidade de Florianópolis.  Que os homens e mulheres, sensíveis e de boa vontade nos ajudem nesta empreitada: a de salvar a memória deste meio de comunicação de massa. Que nos ajudem  na coleta de depoimentos dos astros e estrelas que o tempo nos leva.

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