Olhai os Lírios do Campo

Publicado em: 04/12/2011

Meu irmão mais velho tinha o hábito de estudar lendo em voz alta. Dizia que essa técnica o ajudava a assimilar os textos. Isso servia para ele e, também, para mim, seis anos mais novo.

Certa noite, ele lia, no quarto, um livro indicado por um professor de literatura. Estávamos lá, os três irmãos – nossas duas irmãs ainda estavam “em fase de projeto”. De repente, meus pensamentos, quase sonhos de criança, foram despertados por frases curiosas: “Calça rasgada!” “Calça rasgada. Confere!” Ao ouvir aquele inventário, caí na gargalhada, seguido por meus irmãos, pois as frases lembraram situações que normalmente fazem crianças rirem. Afinal, calça rasgada é uma das consequências do “cair de bunda”, por exemplo.

Aquele livro, desde então, passou a exercer certo fascínio em mim. Eu o observava na prateleira e, de vez em quando, o pegava escondido, pois diziam que eu ainda era muito jovem para lê-lo. Sua capa era bem diferente: mostrava uma paisagem estilizada, em branco, vermelho e azul. Parecia uma pintura impressionista! Além disso, outras duas coisas chamavam minha atenção: o título: “Olhai os Lírios do Campo”, belíssimo, inspirado no “Sermão da Montanha”, que eu ainda não conhecia; e o nome do autor: Érico Veríssimo.

Algum tempo passou, entremeado por clássicos da literatura, antes que eu resolvesse lê-lo, já na pré-adolescência. Fiquei surpreso! Era minha primeira leitura que abordava um tema do dia a dia. Eu estava sendo apresentado a um romance contemporâneo!

Havia estudantes de medicina, dramas familiares, ambições materialistas… Tinha Porto Alegre e um grande arranha-céu em construção: o “Megatério”, metáfora da ascensão social a qualquer preço.

Acostumado com os finais felizes e pomposos dos clássicos, as escolhas do protagonista me incomodaram. O desenlace da trama me deixou angustiado. Mas, o que mais me impressionava era saber que aquilo poderia ser real, verdadeiro, “veríssimo”!

Ao fim da leitura inculquei que jamais deixaria a ambição obscurecer sentimentos mais nobres, sobretudo quando se tratasse de amor! Creio que eu já era, desde jovem, um romântico incorrigível.

Depois, fui apresentado a dois personagens magníficos: Ana Terra e “um certo Capitão Rodrigo”, da Trilogia: “O Tempo e o Vento”, outro título magnífico! Junto com eles vieram imagens dos Pampas, o frio cortante do Minuano, as estâncias, a Revolução Farroupilha, a saga dos gaúchos, o calor do “chima”, a beleza das “chinas”… Fiquei definitivamente fascinado por aquele Sul, que Érico Veríssimo soube tão bem retratar com letras.

Ele, ao lado de Lupicínio Rodrigues, Mário Quintana e tantos outros, são dignos e legítimos expoentes dessa estirpe meridional, que floresce como os lírios do campo e nos mostra que o Brasil é rico de múltiplas e surpreendentes maneiras. É um país que merece e precisa ser descoberto, cuidado, respeitado e amado todos os dias pelos que têm a benção de viver em seu solo, sejam natos ou não!
Dezembro é um mês de muitas luzes! Érico Veríssimo é uma delas, que nasceu e continua viva, atual e brilhante, apesar dos mais de cem anos passados, mas nunca perdidos. Ele é como os bons vinhos das Serras Gaúchas: o tempo os aprimora, o vento dissemina seu “buquê” por todos os cantos do país e quem o “degusta“ quer logo que encham a taça!

Érico nos deixou grandes obras, inclusive Luis Fernando.

É um autor que merece ser lembrado, festejado e sempre – e principalmente – lido!

Ouça textos do autor em: www.carosouvintes.org.br (Rádio Ativa / Comportamento) |
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