Onde estão os repórteres?

Publicado em: 22/02/2006

Uma vez, uma única vez fui convidada para falar em um estúdio a respeito de alguma coisa que estava ocorrendo ao mesmo tempo. Explico: era minha função comentar o que o repórter, que estava no local, ia transmitindo.
Por Anna Verônica Mautner

Fiquei lá umas duas horas e saí de lá como se tivesse tomado umas três drogas excitantes. Levou horas para a adrenalina abaixar. Foi uma experiência maravilhosa. O caso era triste – de uma série de moças estupradas no parque do Carmo – mas acompanhar passo a passo o que os repórteres no local iam descrevendo e depois comentar me pôs em órbita. Confesso que teria preferido estar junto com o repórter no local ou ter sido a própria repórter.
Aliás, onde estão os repórteres? Percebo que os repórteres de rádio ou de televisão mais entrevistam do que descrevem. Os entrevistados não são preparados para falar ao público, na maioria das vezes, falam comprido demais, gaguejam e repetem aqueles chavões inúteis como “Isto é, no sentido de” ad nauseam. As formas de áudio têm uma especificidade que vem sendo relegada a segundo plano. A emoção vem desaparecendo junto com a surpresa. O repórter vem ficando distante e aquele que vai comentar, a “otoridade” nunca vai ao local do crime.


Acy Cabral Teive, literalmente corre atrás da notícia, enquanto o governador Jorge
Lacerda, ao fundo sorri. Chegada de “autoridades, civis, eclesiásticas e militares” no
aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis no final da década de 1950.

Sei que estou exagerando porque estou focando cenas da vida cotidiana e não a luta de vida e morte entre transgressores, assassinos e polícia. Tem casos de polícia – lá está o repórter. Mas quem acompanha a chegada de crianças de escola na primeira vez diante do mar ou diante dos bichos no zoológico ou vendo os dinossauros na Oca?
Quero reviver pelo rádio, através do tom de voz do repórter surpreso, a emoção diante do novo, do alegre. Não estou aqui para fazer uma pauta, mas estou aqui para trazer ao rádio o convite para ir àqueles lugares desejáveis que o repórter tão bem descreveu, que despertou meu desejo de me surpreender também. O repórter despertando o medo da polícia, dos bandidos, dos acidentes não me parece que tenha tido o desejável efeito de diminuir o índice de crimes. Mas não é isso que quero discutir. Quero de volta o repórter que me leva a querer ir amanhã onde ele esteve ontem. A tarefa de repórter ficou relegada às agências de notícia, onde cabe o relato do fato e não da emoção. Gosto de ouvir o arfar do repórter correndo atrás da notícia. Ele me multiplica, me clonando, sem me tirar a oportunidade de imaginar o lugar, pois rádio é só áudio. Fico livre para imaginar o vídeo.
A minha inveja do repórter que sumiu é tanta que, não fosse o adiantado da minha idade, eu iria me candidatar.


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