Os lados da Comissão da Verdade

Publicado em: 30/05/2012

Não custa repetir: a Comissão da Verdade era inevitável (principalmente para as famílias dos vitimados). Passamos dois regimes de exceção (o de Getúlio ainda conta), houve tortura, desaparecidos, prisões, assassinatos. Os tentáculos do Estado agiram fora de postulados civilizatórios e isso só fica impune, passa em branco quando se trata das “ditaduras de esquerda”. Ditador de esquerda não vai para o banco dos réus! Agora, é tolice crer que ela se moverá no vácuo (objetiva alcançar algo que não se deu no vácuo) e vem para avaliar um momento em que o pior e o melhor de cada um de nós se expressaram. Mexerá em ferida que pode doer e sangrar. Mexerá com nossas contradições e boçalidades, com nossas hipocrisias, nossos medos e nossa ignorância.

Além do mais, a Comissão terá mais serventia se nos levar a refletir. Que tipo de povo, de Nação, de país, de pátria somos que em menos de 60 anos passamos por duas ditaduras? Esta é a primeira questão a remoer nossa consciência. Responder a indagação não é coisa pouca, e não sei se nós, brasileiros, ficaremos orgulhosos com a resposta. Nosso consolo (?) é que não estamos sozinhos em tal desdita: é incrível a facilidade com que qualquer povo – ou seja, eu, tu, ele, nós – se submete ao tacão.

Outra pergunta: qual a justificativa para implantação dessas duas ditaduras? Não poucos historiadores dizem (referindo-se aos dois períodos) que “a ameaça comunista justificou um estado permanente de guerra, quando se criou uma série de instituições de segurança que exerciam seu poder de forma arbitrária”. Até que ponto isso é verdade? Há algo de macabro nessa justificativa e muita gente busca nela fundamentação para apoiar as duas ditaduras (embora não o façam publicamente).

E qual a grande ironia deste momento? Os inimigos figadais estão se dando as mãos! A senadora gaúcha Ana Amélia Lemos do PP (o mesmo PP que foi PDS, que se originou da Arena, partido que dava oxigênio institucional à ditadura que veio por causa do comunismo ameaçador) montou coligação em Porto Alegre com a deputada federal Manuela D’Ávila, do PC do B (o mesmo PC do B que foi para a luta armada durante a ditadura e cujo modelo de regime jamais seria aceito por uma democracia?).

Mais: quantos lados tem a Comissão da Verdade?  A morte de Vladimir Herzog e o desaparecimento do deputado Rubens Paiva estão no mesmo nível (ou são situações diferentes?) dos mortos na Guerrilha do Araguaia?

A dica de que estamos em área pantanosa veio com Frei Betto questionando se o ministro Gilson Dipp é capaz de agir com imparcialidade (conforme exige a lei da CV). Esse questionamento de Frei Betto, cidadão que foi preso e torturado a ditadura, talvez passasse sem aferições não fosse ele admirador da ditadura cubana que jamais respeitou os direitos humanos (o terror imposto por Fidel em Cuba faz do nosso um convescote). Ou seja, com dois pesos e duas medidas é difícil achar a verdade que apazigua.

Enfim, no frigir dos acontecimentos tenho lá minhas dúvidas de que a Comissão da Verdade (inevitável, reitero) produza algo de útil para a Nação: suspeito estarmos irremediavelmente cegos ideologicamente para compreender a grandeza do momento.

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *