Os outros pais

Publicado em: 12/01/2009

Os órfãos que perdem o pai biológico muito cedo devido a uma tragédia acabam logo ganhando outros pais que os vão influenciar pela vida toda. *

 O meu morreu quando tinha dois anos. Não posso dizer que me lembro dele, a não ser por fotos e histórias contadas por familiares. Mas os pais que ganhei ao longo da vida não foram porque se casaram com minha mãe, aliás, eles nunca a conheceram.
Mas posso garantir que dois deles marcaram e marcam minha vida de forma mais do que indelével, eles são definitivos.

Um deles por ter um nome muito comum e muitos problemas no serviço de proteção ao crédito passou a se chamar José Maria Ferreira Maciel dos Santos, mas na verdade era o José Maria Santos, Zé Maria, ou simplesmente Zé, o maior ator de teatro do Paraná de todos os tempos. Assim como Pelé, está para nascer outro Zé Maria. Com ele aprendi não só a arte de representar… Aprendi política, sociologia, antropologia… Humanidade!

O outro, um dia me viu declamando poesias num palco de teatro e me convidou para ser radialista. Não sabia ele que eu já havia dado meus passos neste mundo fabuloso da difusão sonora. Mas isto não importa, o que vale é que naquele dia, um dos profissionais mais importantes da história do rádio brasileiro descobria em mim, alguma coisa, que nem mesmo sabia. Jair Brito me colocou na cena mais valorizada do rádio paranaense dos anos 1980, precursora do que viria a ser mais tarde o slogan famoso “a rádio que toca notícia”.

Na equipe 670 de jornalismo da Rádio Cidade de Curitiba, Jair Brito montou uma das mais qualificadas equipes de jornalistas e radialistas que a cidade tinha tido notícia. E lá fui eu ser locutor noticiarista ao lado de verdadeiras lendas do rádio como Sérgio Luiz, Amauri Tomé, Paulo Ernani, Paulo Branco, Jurandir Carioca, Vinicius Coelho, Cláudio Ribeiro, Toni Mineiro e Luiz Ernesto. Infelizmente foi por pouco tempo. Contudo, neste período aprendi muito com Jair Brito. A cidade de Curitiba ainda não estava preparada para a Rádio Cidade.

Jair Brito voltou a São Paulo, mas quando retornou, novamente me contratou e lá fui eu mais uma vez aprender coisas que nem meus anos de faculdade, nem minha pós-graduação em rádio na Espanha me deram. Aprendi política, informação, redação… Jornalismo!

Jair Brito é uma dessas raras pessoas que com sua capacidade é reconhecida por todos os famosos deste país e desconhecida do grande público ouvinte. Sem ter sido “voz”, ele foi a voz que dirigiu os mais competentes e impressionantes profissionais do rádio e televisão brasileira nos últimos 50 anos.

Não, esta não é uma homenagem “post-mortem”, não! Mesmo porque Jair Brito não precisa de homenagem, precisa isso sim é de uma emissora em suas mãos, ou uma rede de comunicação que reinvente o rádio, que reinvente uma programação, que traga de volta a figura do diretor artístico, do diretor geral, do diretor de radio jornalismo.

Numa época em que os celulares podem se conectar com a rede mundial de computadores e a tecnologia nunca esteve tão avançada; numa época em que a amplitude modulada pode ser codificada e digitalizada é impressionante a falta de originalidade; numa época em que falta competência para tratar das ondas sonoras do rádio, antes que qualquer palavra, música, ou som possa ser captado por um microfone (Engraçado ele continua micro mesmo com toda a evolução!); numa época em que web rádios se multiplicam aos milhões (tenho uma dessas, meio desativada, a rádio Zalas), Jair Brito ocupa seu tempo contando histórias na própria rede.

Quantos profissionais passaram e se encaminharam na vida pelas mãos de Jair Brito? Com certeza milhares!!! Ser lembrado por ele então, assume uma importância acima de qualquer medida. Receber convite para escrever no “Caros ouvintes” então é responsabilidade demais. Mas aceitei e assumo o compromisso de enviar a ele pelo menos dois textos sobre o rádio na Polônia, terra do meu avô polaco e onde estou a seis anos em regime de estudos: “Locutor único nas dublagens polacas”, “A digitalização já chegou no rádio polaco”.

* Radialista, ator e jornalista. Atualmente fazendo doutoramento na Universidade Iaguielônia de Cracóvia, já foi correspondente internacional da TV Bandeirantes, jornal O Estado de S.Paulo e coordenador da seção brasileira da Rádio Nederland (Rádio Holanda Internacional) e estagiário na Rádio Exterior de Espanha. É repórter free-lancer internacional da TV SBT.

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *