Os pensamentos daquele menino

Publicado em: 12/02/2020

Às vezes uma pessoa tem dúvida se bebe porque gosta, se é costume, ansiedade ou se é alcoolista. Uma tarde de sábado, logo depois do almoço, saí para caminhar. Havia comido pouco e o clima estava convidativo; ruas e praças eram mais atrativas do que qualquer cama confortável, pelo menos naquela tarde.

Quando passei por uma praça no bairro Bela Vista em São José, resolvi sentar num dos bancos. Muitas árvores e alguns brinquedos, poucas pessoas. Sentei segurando o livro, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis. E claro que com uma caneta para sublinhar ou anotar pontos que me chamam mais atenção. Depois de ler alguns minutos levantei a cabeça e respirei fundo. Foi para imaginar a cena do capítulo LIX – Um Encontro – onde Brás Cubas narra o encontro com Quincas Borba; amigo de infância, muito inteligente e que imaginava Cubas, teria um grande futuro. Quincas Borba era agora um mendigo e vivia nas ruas pedindo dinheiro para comprar comida. Ao final do encontro e por ter ganhado de Cubas cinco mil-réis, lhe deu um abraço, só depois Cubas percebeu que Quincas havia lhe roubado o relógio durante o abraço. Nesse momento olhei para o banco à minha esquerda e vi um menino; parecia estar chorando; imaginei que tivesse entre 12 e 14 anos. Não resisti e me aproximei já procurando algum pretexto para iniciar uma conversa.

– Boa tarde, meu amigo. Gostas da temperatura assim ou prefere o calor?

– Gosto do calor, mas hoje a temperatura está muito boa.

– Gostas de ler? Pergunto porque te vi pensativo e sempre imagino que pessoas que conseguem parar para apreciar a natureza e refletir gostam de ler. Desculpe, meu amiguinho, mas essas lágrimas… Bom, vai pensar que sou intrometido, mas não tenho o desejado poder de ler pensamentos. Aliás, para um ser humano, não sei se ler os pensamentos dos outros seria uma benção ou maldição. Posso fazer alguma coisa por ti?

– Acho que o senhor não pode fazer nada para ajudar.

– Se te ouvir for de alguma ajuda, estou aqui e não tenho pressa. Lágrimas quando não de alegria podem ser por um amor não correspondido ou por problemas em casa.

– É. O senhor acertou as duas coisas. A menina que gosto me disse que só quer a minha amizade. Quando se ama alguém com amor romântico, amor de verdade, ter essa pessoa só como amiga também pode ser uma benção ou uma maldição, como o senhor falou sobre ler os pensamentos. Para piorar, lá em casa está tudo mais difícil a cada dia. O meu pai tem bebido muito. Vejo ele a cada dois dias e duas noites. Não sei se o senhor mora por aqui e se conhece ele, mas se conhecer, por favor, não conte a ninguém. Gosto muito dos meus pais, e só vejo os dois sofrendo. Eu tenho 12 anos e 10 irmãos.

– Poxa, 10 irmãos! Tua casa deve ser bem movimentada.

– Até que não. É que em casa sou eu e 3 irmãs, além da minha mãe e do meu pai. Meus pais trabalham muito, mas raramente, quero dizer, são poucas às vezes que vejo meu pai sóbrio no almoço ou na janta. Ele tem outra família aqui mesmo no bairro; talvez nós lá em casa é que sejamos a outra família. Estou com a consciência pesada. Tenho maltratado muito a minha mãe. Falo a ela vários palavrões, chamo minha mãe de vagabunda e outras coisas feias. Depois me arrependo. Não sei por que falo assim com ela, e pior, não consigo pedir desculpas. Ela trabalha como empregada doméstica. Levanta lá pelas 4 horas da manhã para terminar algumas coisas da noite anterior. Faz um breve carinho em mim e na minha irmã caçula, nos orienta a ter cuidado e sai. Volta lá pelas 19 horas. É assim há muitos anos. Minhas outras duas irmãs que têm 5 e 6 anos a mais ajudam a cuidar de nós e da casa. Creio que tudo o que minha mãe ganha gasta com coisas para casa e alguns agrados para nós. A minha irmã e eu desde bem pequenos sempre conseguíamos uma ficha telefônica para ligar para à casa onde minha mãe trabalha. Tínhamos uns 3 minutos para falar com ela. E uma vez por mês ela levava um de nós com ela. Não dava para levar nós dois, pois ficava muito caro; seriam ao todo 12 passagens entre ida e volta. Com certeza minha mãe nunca compra nada pra ela.
Meu pai dorme uma noite lá em casa e na outra noite com a outra esposa dele. Como disse, já não sei quem é a outra. A mãe dos meus irmãos diz que minha mãe é a outra. Gosto muito dos meus 5 irmãos que meu pai têm com ela. Eles são meus irmãos e amigos. Agora estamos um pouco afastados. Eles são mais velhos. Alguns de nós têm menos de 5 meses de diferença de idade. Eles também têm uma irmã mais velha. Quando a vejo ela me trata bem. E ainda tenho um irmão e uma irmã do primeiro casamento do meu pai.

– Como é mesmo o seu nome?

– Otávio.

– É uma história interessante, mas parece bastante difícil para todos vocês. Teu pai, quando está bêbado bate ou maltrata vocês?

– Não. Nunca. Ele por vezes se esconde em algum canto da casa e quando o encontro ele está chorando. Sempre fala muito de sua difícil infância. Assim também é com a minha mãe. Ela não bebe, mas às vezes não a encontro facilmente, e quando a encontro ela está escondida em algum lugar do nosso lindo quintal, chorando quase em silêcio. É muito triste ver meu pai comer quando está bêbado. Minha irmã caçula e eu ficamos por perto, mesmo já depois de termos almoçado, mas ficamos perto dele porque ele acaba caindo no chão enquanto come e temos medo que se machuque.

– E tu consegue conversar com ele?

– Sim. Quando está sóbrio é bem melhor. Quando bebe ele costuma contar a mesma história de sua dura infância. E quando erramos em alguma coisa ele nos chama para – dialogar, nos dá longos conselhos e acaba sempre contando sua história de infância.
Ele costuma soluçar muito durante à noite e quando para acho que ele morreu. Há anos que fico acordado para saber se ele parou de soluçar por ter morrido, então, corro até o quarto dos meus pais e passo ali alguns minutos. Agora custo a dormir.

– E o que gosta de contar para o teu pai?

– Coisas do dia a dia. Mas isso também já resolvi. Tive uma ideia e faço isso quase todas as noites. Assim que me deito começo a imaginar meu pai sóbrio. Primeiro imagino como seria a vida se ele não bebesse. Como seriam as coisas lá em casa. Isso não consigo imaginar. O que consigo é imaginar é meu pai sóbrio e eu conversando. Parece que ele está ali do meu lado. Conto sobre a Daniela, a menina que gosto. Falo sobre a escola e meus colegas. Incrível. É como se ele estivesse ali mesmo. Me ouve e me dá conselhos. Quando dou por conta já é hora de levantar. Só é mais difícil quando ele está em casa, porque preciso cuidar dele. Comecei a cuidar dele quando eu tinha 4 anos. Já com 4 ou 5 anos dormia ao lado dele, no chão. Achava que ele estava doente, porque alcoolizado ficava muito diferente e eu não entendia. Hoje eu também bebo, às vezes exagero, mas ele não sabe.

– E teu pai já foi ao AA ou já foi internado para se tratar?

– Ao AA já fui com ele várias vezes, algumas delas pegava na mão dele, pois havia bebido demais. Também já foi internado várias vezes, mas sempre por poucos dias. O senhor sabe por que é ruim quando ele para de beber? A pior coisa é a recaída. Quando um alcoolista para de beber a família quer pular de alegria, nem parece verdade. A pessoa está ali, sóbria, mas geralmente dura pouco tempo e então quando o vemos bêbado de novo é pior ainda. Hoje, se ele parar de beber sinto muito medo de ficar alegre ou comemorar, porque a recaída é demais dolorosa. Numa das vezes que meu pai parou de beber, isso faz uns 2 anos, ele começou a ter crises de abstinência. Talvez varie de pessoa para pessoa, mas meu pai parecia estar com um ataque epilético, é mesmo assustador. Parece que ele vai morrer. Então, como eu dizia ao senhor, numa dessas vezes ele estava há uns 3 ou 4 dias sem beber. Era uma tarde de sábado e ele parecia nervoso e estava com o rosto muito vermelho. Minha irmã e eu fomos até a cozinha e falamos sobre oferecer uma cachaça para ele, assim ele não teria a crise e não correria o risco de morrer. A princípio relutamos, afinal de contas parecia que estávamos indo na contramão dos nossos sonhos, ver o pai curado. Por fim decidimos com muito remorso oferecer bebida a ele. Dissemos que sabíamos o quanto ele estava se esforçando, mas depois ele poderia tentar de novo e nós estaríamos ali para dar todo o apoio. Ele agradeceu e não aceitou a bebida, mas poucos dias depois voltou a beber.

– E quando teu pai está sóbrio tu falas com ele sobre isso?

– Sim. Digo a ele que queria filmá-lo e que ele não se reconheceria. Só não conto pra ele como me sinto mal com outra coisa. É que ele bebe no bar e em casa, muitas vezes bebe em casa. Meu pai nunca tem bebida em casa, então ele pede para eu comprar um copo de cachaça no bar quase em frente a nossa casa. Isso me faz sentir mal, muito mal, porque sou eu que levo a pinga pra ele. Há dias em vou ao bar umas 10 vezes buscar a cachaça Às vezes, derramo um pouco no chão, assim ele toma um gole a menos, como se fizesse diferença. Também não contei pra ele que há uns 4 ou 5 anos, depois que ele e minha mãe tiveram mais uma briga feia por ele ter feito uma bagunça e sujeira no banheiro, e na briga minha mãe o mandou embora. Eu tinha muito medo que ele fosse embora e não voltasse mais. Então caí na besteira de dizer pra ele: “Pai, o pai não devia beber, porque quando o pai bebe a gente se incomoda”. Nunca pensei que seria tão mal interpretado. Meu pai saiu de casa e demorou muito para voltar, e era uma noite em que dormiria lá em casa. No início da tarde fui procurá-lo e pedir desculpas e para ele voltar para casa; que eu não devia ter falado nada e ele não incomodava. Procurei por horas e em muitos bares; cheguei a ir até à casa dos meus irmãos. Disfarcei, fiz de conta que só o procurava por uma bobagem qualquer, ele não estava lá. Em casa não contei para minha mãe e minhas irmãs, tive medo de ser o culpado pela partida do pai. Chorei muito àquela noite. Dias depois ele voltou. Fiquei contente e quieto. À noite, quando saiu do banho, ele me chamou para conversar. Estava sóbrio. E me disse: “Não gostei do que você falou outro dia. Cuide da sua vida que eu cuido da minha, certo?”. Respondi que sim. Não correria o risco de perdê-lo outra vez.

– E pelo que percebo, Otávio, tu não vai desistir do teu pai, não é mesmo? Estás com 12 anos e pelo que me contou desde os 4 ou 5 vem tentando. E sinceramente, já ouvi muitas histórias de alcoolistas que conseguiram parar de beber, tiveram suas recaídas, mas hoje estão há 10, 20 e até 30 anos sem beber. São alcoolistas em recuperação. Se me permite dizer uma coisa; continue sendo paciente. Mantenha-se perto do teu pai. Com a tua mãe seja mais paciente e amigo dela. E não esqueça de cuidar de ti mesmo. Tua saúde, tua mente, teus estudos. Procure entender que na maioria das vezes não temos como controlar os outros, sejam seus problemas, desafios e desejos. Antes de eu ir embora vou te pedir mais uma vez; peço porque vejo a tua força e fé; será difícil, mas não impossível; não desista. Nem do seu pai, nem de ajudar sua mãe e ser grato a ela, mas não esqueça de ti mesmo. A vitória muitas vezes também traz cicatrizes. Os anos passam rápido. Um dia terás a tua própria família e também terás teus desafios. Foi um prazer e uma honra te conhecer nesse momento. Adeus.

– O senhor não me disse seu nome nem onde mora, e parece que o conheço de algum lugar.

– Não há necessidade de falar meu nome e onde moro. Tu também me parece familiar.

– E se eu quiser ou precisar falar com o senhor outra vez?

– Tu não percebe porque é muito jovem e está num momento especialmente difícil. Nem procure entender, apenas saiba que estou perto de ti há 12 anos e tu estás perto de mim já por quase 50 anos.

– Não consigo compreender isso que o senhor disse.

– Eu venho tentando te compreender por toda a minha vida.

(Conto baseado no romance – Um Sonho de Menino – que publiquei em 2011)

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