Os piratas dos submarinos nucleares

Publicado em: 15/01/2010

O rádio português está ficando americanizado? Para intelectuais preocupados com a sobrevivência de um “audiovisual europeu”, essa americanização seria evidente e demasiada. Para entusiastas das novidades trazidas pelo fim do duopólio da Igreja e do Estado, ainda há muito que importar da vigorosa experiência de rádio privada nos Estados Unidos.
Alguns projetos que ocupam as ondas portuguesas são assumidamente copiados de modelos norte-americanos, como no caso da XFM. Outros têm a mesma origem, mas chegaram aqui depois de um estágio em outras terras, como a Rádio Cidade, que trouxe um “embalo” brasileiro, e a Nostalgia, que adquiriu no caminho um “charm” francês. Adaptadas às condições e ao gosto português, o que restará de americano nessas programações?

Para quem não teve a oportunidade de ouvir os modelos originais, há uma emissora na região de Lisboa autenticamente americana, mantida por uma das mais sólidas instituições dos Estados Unidos: a sua máquina de guerra. O “Armed Forces Radio Service” existe desde 1942, quando começou a transmitir música ligeira para animar os soldados trazidos para a Europa na Segunda Guerra. Hoje, conta com oitocentos postos de emissão, sempre em micro-potência, espalhados pelo mundo. Um deles nas instalações da Nato na Costa da Caparica, transmitindo em 88.4 FM.

Apesar de sua discreta pirataria – tem alcance reduzidíssimo e sequer ‚ considerado entre os órgãos da comunicação social – a A.F.R.S. ‚ uma das mais importantes referências na história do rádio europeu. Foi nela que as primeiras piratas foram buscar seus modelos de programação. Inclusive a Rádio Luxemburgo, que infernizou a BBC com sua popularidade ao ponto de derrubar os principais conceitos de programação da emissora de Londres. A BBC recusava-se a transmitir música ligeira, e considerava que o público deveria refinar o seu gosto no caminho apontado pelo nível cultural de seus realizadores. Com o ataque das piratas influenciadas pela rádio dos soldados americanos, teve que se render para não ficar sem ouvintes.

A A.F.R.S. transmite música popular americana, sem grande preocupação com as novidades. São sucessos das últimas décadas, onde predomina o tom das baladas. Tem um serviço próprio de informação, mas às vezes brinda os ouvintes com o noticiário mais independente do C.N.N. Radio Service. Programa entrevistas, principalmente no início da noite, e durante todo o dia anima e orienta os militares sobre como sobreviver longe da patria. Fala em inglês, obviamente, com o sotaque cantado do lado de lá do Atlântico.

Mais do que por seu conteúdo, uma rádio que interessa ouvir pela sua forma. Os “D.Js.” norte-americanos representam uma admirável escola de locução, pela maneira como exploram todos os recursos de musicalidade da palavra. O jogo com diferentes vozes, a fluidez com que se intercalam as canções e as falas, a programação em fluxo contínuo, são elementos que destacam o componente analógico da linguagem radiofônica, que permanece difícil de alcançar com o duro cartesianismo europeu.

Alguém disse que o rock já fez mais pela hegemonia dos Estados Unidos no mundo do que todas as bombas que suas forças armadas têm despejado por aí é uma boa frase. Mas oculta o fato de que o rock, na música, como a evolução da linguagem, no rádio, foi apropriado pelos outros povos como qualquer progresso técnico. Na cultura ocidental, nada é mais irreversível do que isso.

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