Os Sacrossantos Templos do Consumo

Publicado em: 01/05/2013

Alguém já disse, com razão, que o shopping center é o templo do consumo. Concordo inteiramente, e julgo fácil observar o que leva a essa conclusão.

O shopping é imponente. Construído mesmo para impressionar, destaca-se na paisagem, atropelando a antiga e acanhada geografia das ruas de bairros, ocupando espaços, congestionando avenidas, atraindo multidões. E geralmente sua entrada principal é altíssima, primando pelas verticais, como o são as centenárias catedrais, com arquitetura que é feita também, na estrutura, como uma construção que clama aos céus.

Shoppings são iluminados. Como os templos, lançam para fora sua iluminação feérica para guiar seus fiéis frequentadores. Do lado de dentro, as luzes parecem querer banir os semitons: é preciso que tudo esteja bem claro; que tudo se mostre, se ofereça à vontade de comprar, de possuir. Compradores também se exibem iluminados, uns aos outros, como se não houvesse a opacidade, física e psicológica, de cada um; como se, nesse templo, todos fossem iguais, nos desejos, nas posses, na entrega aos prazeres do adquirir.

As vitrines são como capelas onde se para na contemplação absorta, quase mística dos produtos expostos. Diante dessas transparências de vidro, cada um se entrega ao êxtase diante dos objetos de desejo, sendo transportado ao paraíso de antecipação prazerosa da obtenção e do uso que ainda virão.

As empregadas e os empregados das lojas são sacerdotes e sacerdotisas. Moças belíssimas, praticamente semideusas, ali estão para lançar os véus de seus sorrisos, de sua delicadeza, envolvendo os compradores. Rapazes igualmente bonitos estão à disposição para servir às freguesas, deixando-as sem condições de resistir à volúpia do consumo.

Ninguém escapa. Velhos, jovens, crianças. Os pequenos, então, são presas fáceis, e arrastam consigo pais e mães, por mais relutantes que eles sejam. E aos pequenos também é reservada a área mágica dos brinquedos e jogos, que além do mais os prende, para que os adultos possam se entregar à embriaguez das compras.

Ao contrário dos templos religiosos, quase não se senta nos shoppings. A escassez proposital de bancos obriga à circulação. E quem circula vê, revê, submete-se cada vez mais à atração… e compra.

Dentro desses templos, uma grande capela exorta ao pecado da gula. É a praça de alimentação. Aí, o pão dos sanduíches e o vinho representado em todas as bebidas formam uma hóstia profana com a qual comungam os glutões nada arrependidos.

Os shoppings substituíram o comércio de rua e os pequenos estabelecimentos de bairros, que se poderiam considerar, em nossa analogia, pobres igrejinhas de nosso passado de consumidores incipientes. Juntaram-se no grande-templo-shopping as capelinhas onde fizemos nossas primeiras genuflexões de noviços na religião do consumo.

Nesses imensos templos, até os automóveis têm sua grande área própria: o estacionamento. Rampas e rampas são como caminhos subterrâneos ou de subida que levam às cavernas, onde os carros – eles mesmos objetos especiais de consumo – aguardam os ávidos consumidores, que surgem carregados de sacolas, cujo conteúdo encherá as malas dos carros, destinados a transportar até em casa o que foi comprado.

Nas casas, depois do culto das compras, a última parte da cerimônia acontecerá, no ritual de abrir embrulhos, experimentar roupas e sapatos, ou simplesmente de contemplar aquilo que se adquiriu.

Na religião professada pelos que frequentam esses templos de consumo, a fé é irrestrita, poderosa e, como toda fé, contraposta em grande medida à racionalidade. Isto faz com que se transponha a barreira do razoável, comprando-se muito mais do que se pode. Em princípio, todos podem comprar, mesmo que mergulhem cada vez mais na dívida, que é como um pecado que arrasta os fiéis do consumo para o fogo dos infernos da incapacidade de pagar, da inadimplência, da cilada dos empréstimos e financiamentos com seus juros escorchantes.

O que fazer, caro leitor ou ouvinte, em face de tais templos de aquisição e sua religião do ter, do possuir, a qualquer custo? Parece que nada. Nos dias que correm, creio que todos já vendemos nossa alma ao belzebu da gastança. Talvez só nos reste aproveitar as cerimônias deliciosas, irresistíveis e prazerosas que oferecem esses nossos maravilhosos templos de consumo.

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