Paciência!

Publicado em: 02/05/2012

Dei a mim mesmo importância superlativa ao descobrir, na semana passada, que estava ombreado com paulistanos e cariocas, gente de primeiro mundo, no quesito Otário Empacado na Fila. Dizia a matéria da agência Folha que a maioria desses nossos amigos cosmopolitas e descolados “gasta entre meia hora e uma hora para se deslocar de casa ao trabalho”. Já sabia que os engarrafamentos por lá são absurdos, que é comum se falar em “90 km de filas e 160 km de lentidão”, que os moradores de bairros distantes passam boa parte do dia sacolejando no trem ou no coletivo para ganhar seu pão. Mas desconfiava que mesmo os pequenos deslocamentos eram arrastados, irritantes, um teste para a paciência de qualquer assalariado.

A surpresa ficou por conta do tempo real gasto nesse mister. Segundo o texto, 28,44% dos trabalhadores da capital paulista precisam de seis minutos (isso mesmo, seis minutos!) a meia hora para chegar ao serviço. E 35,37% se apresentam ao chefe após passar uma hora morgando no congestionamento.

Bem, pensei, uma hora é o tempo que também gasto, na província, para chegar ao trabalho, vencendo a Via Expressa continental, a ponte Pedro Ivo Campos e depois, já um tanto aliviado, a avenida Beira-mar Norte ou a rua Deputado Antonio Edu Vieira – aquela que a prefeitura quer duplicar, como se isso fosse suficiente para resolver o imbróglio do tráfego na Ilha.

No Rio, o pessoal dos seis minutos é ainda mais numeroso. São 32,54% os que, com alguma sorte, batem o ponto logo depois de saírem de casa. Tudo bem, há os que vão a pé, os que moram perto do emprego, os que têm uma estação de metrô na frente da própria calçada. Mas foi com uma ponta de inveja que soube dessa maravilha que é não enfrentar milhares de carros, maus motoristas e o ponteiro do combustível despencando por causa daquele anda-para-anda que é nosso tráfego manezístico.

O consolo, se é possível falar assim, é que a situação se repete na maioria das capitais brasileiras. Não precisa ser metrópole, ter 10 milhões de habitantes ou formigueiros humanos na periferia para conviver com um drama que vai de segunda a sexta-feira. Cidades de Rondônia, Tocantins e Mato Grosso passam pela mesma provação.

Perceber que tenho o mesmo privilégio de paulistanos e cariocas de mofar na fila foi a boa nova da semana. Agora, só falta chegar perto deles na animação cultural, na renda mensal e na superioridade que julgam ter sobre os demais brasileiros. Mas aí acho que já é pedir demais!

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