Carmen L. Fossari

Palavra de Mulher: Carmen L. Fossari

Publicado em: 10/03/2013

Semana Internacional da Mulher | Depoimentos | Repórter Cláudia Barbosa

Carmen L. FossariDE CAMÕES AO 8 DE MARÇO*

I – A poesia primeira

Um dia Camões, | Camões das bravuras em palavras | esculpidas nas âncoras manoelinas | atravessou o além mar | e, além foi no mar imenso | que varadas terras impulsionaram | o novo mundo nascido.

II – A eternidade dos versos

Outro dia ele o Luiz Vaz decantou: | o amor é fogo que arde sem se ver | e nos permitimos da poesia posta saborearmos | o néctar do prazer, antes que | em ferida aflorada, o sequencial verso: | é dor que arde sem se ver.

Sábio poeta, das trovoadas e feitos ditos | das ainda hoje leituras que seus versos nos sugerem.

III – O que…

Que o novo mundo do luso reino | plantou uma flor do láscio | que rebrota aos nascidos | em brasilis terras.

Que o novo mundo de franças, | e espanhas se adjuntaram |  nas conquistas bravias | em pólvora descoberta, | costurando noutras léguas | tantas línguas.

IV – O confronto primeiro

Demarcadas em sangue daquilo que | sem conquista se impõem na mira da pesada artilharia, | Pois que das índias nações dizimadas | consolidou-se o novo mundo, | mistura de terras, verdes, ouro | prata, no mar de sangue | sem que o sol permitisse | em oclusão abster-se | voltando de testemunha dia ao outro | e outro ano.

V – O mundo gira

Girou o sol, toda volta | amanhecendo uma era | O novo mundo, tramou-se.

Máquinas costuraram | modernidades tecidas | em matizes tão cinzas.

O tempo retalhado em pedaços | pulsando em batida veloz | selando a vida em vírgulas, | dependuradas em artérias | servir à industrialização!

VI – O sonho

Difícil a vida as vezes | A quem ao pão o desejo | Sentindo aos bolsos esvaírem | tostões que o trabalho | não alcança.

Um dia nas terras que ainda hoje | forjada sob o manto do império, | perpetuam o mar de sangue | em dominarem ao desejo | serem mandatários do mundo, | ainda que ostentem em estátua | a Liberdade cimentada | em seu gigantismo, | operárias ao trabalho, | dezesseis horas ao dia | unidas, de assim o saberem | as melhores pretenderem | pararam as máquinas.

VII – O nosso não é pelo sim | o nosso sim é pelo pão

Pensaram as operárias mulheres | unidas a acordarem | se aos dedos das mãos | são de dez em contados | ao produzirmos nas horas | somarmos em horas por dia | dez horas de produção! | Já estará de bom tratado. | Paradas mais de cem ao trabalho | Por sonharem ao desejo os doces sonhos | de conseguirem à casa chegarem, | olharem um filho e outra | menina recém nascida do ventre, | quiçá | um beijo materno, | o amor ao tempo ao amor | paradas de olhos atentos | de medo tecendo suas auras  ousaram dizer, já não mais  | apenas dez horas ao dia | trabalharemos ao nosso melhor.

Estancadas ao sonho detido | Que até hoje nos chega | aquele sonho em amor |

Era fogo que arde, | Era o fogo que doía, ardia. |

Numa tão “cristã” atitude, amando | a produção o patrão, | sem pestanejar ateou primeiro um inflamável estar | esbravejou no líquido ódio: | continuem e já verão!

Nem veriam a primavera, | depois do ferrolho trancado, portas | As saídas já sem | Ateou o fogo, o animal  | em besta fera vestido | naquelas ousadas mulheres | que pararam a produção.

VIII – (Ardeu) o fogo que viram

Arde nossa alma ainda hoje | de véus, de marcas ao corpo, | de gritos, de estupros, sevicias | de mulheres ao mundo prostradas. | O Sol a diário aparece,  ternuriza do frio | o calor, texturiza o Aço e o Mel | esta argamassa de que somos feitas | forjadas na história do mundo.

Mulheres, desde 8 de março jamais esta opressão!!

Que o amor preenche os pântanos  | da história já vivida |  Que a luta vislumbra a vida | em flores ao útero da terra.

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Adendo ao poema:

*(No dia 8 de Março do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas) Carmen L. Fossari

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