Pão de milho

Publicado em: 03/03/2011

Ele tinha sua turma, como todos os guris, e lembra como se fosse hoje do amigo que devorava fatias de pão de trigo, daquelas de forma, cobertas com manteiga e açúcar cristal. Assistia aquilo com um misto de admiração e inveja, porque em casa o pão era de milho, mais pesado, duro, insosso – e barato. Mais nutritivo, o seu pão era, no entanto, símbolo de uma rotina de dificuldades, de privações, com sua cobertura de melado e da nata tirada do leite do dia, comprado no limite da conta de uma vizinha que ordenhava duas vaquinhas no quintal. Do amigo, soube mais tarde que nunca se acertou na vida e ainda perdeu um irmão bastante jovem num acidente de carro, no Paraná.

Outro amiguinho mais abonado tinha todos os tipos de gibis, que emprestava a quem pedisse, num gesto desinteressado. Um dia, nosso herói sentiu vontade de ler alguns deles – Mickey, Pato Donald, Fantasma, Tex – numa tarde chuvosa. Não teve coragem de pedir, mas o outro, lendo seus pensamentos, virou-se e ofereceu o que quisesse. Que sorte! Anos depois, soube que o amigo virara médico, mas perdera um irmão afogado em Piçarras, Penha ou Barra Velha, não se lembra bem, um desses balneários do Norte do Estado.

Outro gurizão morava no lado, era vizinho de cerca, e tinha um diferencial: estava antenado no mundo pelas ondas da Tupi e da Nacional. Mesmo no interior, ele sabia da vida carioca, cantarolava “debaixo dos caracóis dos seus cabelos” e se ligava nas coisas cosmopolitas da cidade grande. Do lado de cá, as novidades chegavam pelo “Correio do Povo”, calhamaço em formato standard, com páginas inteiras de noticiário internacional. Esse vínculo também se perdeu, mas é certo que o ex-amigo mora hoje em São Paulo, onde a irmã é uma respeitada educadora, dessas que fazem consultoria e dão palestras pelo Brasil a fora.

A turminha era boa, tinha um craque da bola, outro que sabia matar passarinhos, um terceiro que era mestre no mergulho e mais um que se dava bem com carás e lambaris. Os filhos do futuro deputado já tinham tevê em casa, mas os primos – outro círculo, este de parentesco – moravam a quatro quilômetros da vila e não precisavam disso, porque iam para a roça de segunda a sábado e tinham um rio inteiro para brincar no domingo.

Muitas recordações ficaram daqueles dias – as pescarias, o futebol, a sinuca, a canastra, as bergamotas, os banhos nos remansos e corredeiras. Mas a fatia de pão macio com manteiga e açúcar branco, símbolo de uma vida sem sobressaltos, talvez seja a mais viva na memória.

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