Papa na América

Publicado em: 05/05/2005

Durante a primeira visita do Papa João Paulo II aos Estados Unidos em 1979, a rádio Capital de São Paulo, me contatou na Voz da América perguntando se eu gostaria de cobrir a visita papal. Fiquei seis meses como correspondente dessa rede nacional de emissoras, passando vários boletins diários de Washington, D.C. para o Brasil.
Aguinaldo José de Souza FilhoPouco depois do Papa deixar os Estados Unidos, fui acordado de manhã cedinho já no ar, ainda sonâmbulo – uma rotina perigosa daquela emissora – falando do caso de um menino do interior de São Paulo que havia contraido uma doença mortal, cujo único remédio estava ainda em fase experimental no NHI – o Instituto Nacional de Saúde norte-americano. O ‘alarde’ feito pelo locutor paulista acabou me acordando para o drama.

Eu respondi que iria àquela instituição de pesquisa médica averiguar. Eu sabia que havia brasileiros se especializando lá. Perguntei na recepção se poderia falar com algum médico brasileiro. A recepcionista me deu uma lista de 16 médicos brasileiros. Só nomes, mais nada. Eu escolhi um nome no meio da lista. Mandaram chamar aquela doutora.

Ao explicar para ela a natureza da doença, ela disse que estava exatamente se especializando no assunto, e me levou diretamente ao médico pesquisador que encabeçava a pesquisa. O médico foi da maior cordialidade. Eu contei a história do menino que morreria se não fosse medicado. Sem pestanejar esse médico me levou ao laboratório, abriu a porta de uma geladeira e me ofereceu uma caixa contendo o remédio valendo milhares de dólares. “É tudo seu”, disse ele, se desculpando por não ter mais.

Eu fiquei sem palavras. A doutora brasileira estava com os olhos mareados. Eu também!

Agradeci desajeitadamente e saí apressado. Sabia que a Varig oferece um serviço de cortesia para transporte de remédios, mas eu teria que entregar em Nova York. Lembrei-me de um colega que deveria estar dublando naquela hora no mesmo estúdio da 42nd Street que eu dublava Ben Kintchlow, o braço direito do pastor religioso Pat Robertson, do Clube 700. Ele estava lá. Expliquei a situação e combinamos para ele buscar o remédio – que precisava ficar refrigerado – no terminal de uma ponte aérea entre a capital norte-americana e Nova York, a defunta Eastern Airlines. Esperando o avião que chegou menos de duas horas depois da nossa conversa, o meu amigo – que suspendeu a gravação para ajudar – transferiu o medicamento para o balcão da Varig que levou o pacote para São Paulo. Voltei para casa, telefonei para a rádio Capital e, novamente jogado no ar sem que tivesse tido tempo de explicar porque estava chamando – pude comunicar aos ouvintes daquela rede e a todos os envolvidos no drama para salvar o menino, que o remédio estava a caminho. Fui informado que um avião particular estava a postos para levar o remédio. Mais tarde soube que o remédio experimental havia dado certo.

O menino havia sobrevivido. Agradeço por ter sido incluido nessa cadeia de eventos e pessoas para salvar uma vida. Mais uma amostra do poder do rádio.


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