Para colorir esses dias sombrios, a Arte de Eli Heil

Publicado em: 18/11/2012

Causa-nos desconforto a viagem a que somos submetidos diante das suas obras. O que nelas é fartura é fragilidade é ao mesmo tempo jactância que nos atinge e despe.

Maria de Fatima Barreto Michels *

A arte  dentro dessa mulher ave, dotada sobejamente de fertilidade, eclode-se em óvulos-obras tresloucadamente, sem esperar a mudança da lua. Sua obra está sendo mostrada na Exposição Barroco Bruto: Eli Heil, 50 Anos de Arte, em Florianópolis. Nossa perplexidade é sempre renovada quando olhamos uma obra desta artista catarinense. Existe muita cor e a marcante presença do ser feminino, seja em forma de ave ou de retorcidas mulheres. Ela não suportou tanta cor, tanta força criadora  que a assomou, por isso a compulsão  por espalhar seus óvulos. Há um cinema que Eli cria e amplia sucessivamente, ao limite da tensão. Ao precipitar-se para o universo em vôo obstinado, no seqüencial da  fita, ela produz e arremete para fora de si.

Causa-nos desconforto a viagem a que somos submetidos diante das suas obras. O que nelas é fartura é fragilidade é ao mesmo tempo jactância que nos atinge e despe. Cada obra de Eli pode ser independente, mas se conseguíssemos costurá-las formariam tecidos vários em um só organismo. A cosmogonia que ela propõe é, ao mesmo tempo, catarse em jorros que encharcam e comovem.

Eli Heil assumiu-se pássaro alienígena que coloca ovos há 50 anos, incessantemente. Parceira da gênese e da fartura é uma facilitadora de blástulas e mórulas. Ela  que é referência não apenas na pintura, mas também na escultura, no desenho, na tapeçaria e na cerâmica, nasceu em 1929 na cidade de Palhoça – SC.

Fiz algumas fotos de suas telas para me deter um pouco mais a apreciá-las em casa, mas sempre que o faço tenho a sensação de ser sugada para dentro de olho (de furacão), que me espreita. Eli é atemporal e inventou sua linguagem de cores e formas, para dizer que a única coisa importante que temos a fazer na vida, é transfundi-la em arte.

Penso que Eli simplificou o mundo, fazendo uma releitura da criação. Quem enxerga retorcido e absurdo são nossos olhos viciados em simetrias e mesmices.

* Maria de Fátima é escritora, poeta e fotógrafa amadora.

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