Paraíso

Publicado em: 04/12/2011

Todo mundo sabe que Deus criou o mundo por que se sentia sozinho, mas eu desconfio que, na verdade, Ele não teve escolha invadido que foi por uma súbita inspiração, já que É um artista. Como diz a D. Lilita: – A gente não canta porque tem vontade, canta porque tem que cantar, isso é da vontade de Deus, minha filha! Acredito que diante de tanta beleza Deus sentiu necessidade de ter alguém, um amigo talvez, para mostrar a bondade de Sua obra. Como quando a gente faz uma reforma na casa ou descobre uma nova receita de bolo ou ganha um filho e pega o telefone e avisa os amigos para compartilhar a novidade, convidando-os para fazer visita.
Penso que Deus criou o mundo simplesmente pelo prazer de ver a obra realizada, como qualquer artista, por obrigação de ofício. E mais: para mim, essa história de pecado e punição foi invenção de alguém num mal momento de sua vida.

Na minha versão do Paraíso, a curiosidade humana não é a razão da sua queda, mas da sua redenção. Inegavelmente alguma coisa aconteceu e eu não tenho a menor ideia do que possa ter sido, e aí a história tomou outro rumo. O homem inventou o pecado, colocou a culpa nas mulheres – o que, aliás, não é nenhuma novidade.

Lilith, a primeira mulher, nascida não de uma costela, mas do mesmo sopro divino que pariu Adão, foi a precursora do feminismo ao se insubordinar à determinação divina de deitar-se, simbolicamente, sob o macho e submeter-se a ele, sendo por isso, segundo consta, expulsa do Paraíso. Sei não!

A se confiar nesse depoimento, parece que, nos limites do Paraíso, além do cardápio restritivo, em matéria de alegria só era permitido fazer o básico “papai e mamãe”, daí que a Lilith disse ao Todo-Poderoso: – Tô fora! Ainda que tudo bem, nada contra, muito pelo contrário, convenhamos: essa rotina de feijãocomarroz todo dia, todo dia, por toda a eternidade acaba com qualquer relacionamento!

Se Deus que é Deus não acertou da primeira vez, isso quer dizer que podemos relaxar. Aliás, nem da primeira nem da segunda, pois se até a Eva que chegou toda meiga, toda cordata, parecendo lisonjeada em ser a imagem e semelhança de uma cópia do original, algo assim como uma xilogravura numerada de Deus, acabou – ela também -, por desejar mais do que aquela vidinha tipo “todo dia ela faz tudo sempre igual” da qual nos falava o Chico e tanto fez que acabou, por força das más companhias, tornando-se a primeira publicitária da História ao dizer: – Come Adão! Tá certo que a serpente deu uma ajudazinha, mas isso não diminui o talento da Eva pra coisa.

Pobre Adão, que carma! Deve vir daí o medo e a histórica incapacidade masculina para compreender as mulheres. Deu no que deu!

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