Passe Livre

Publicado em: 07/02/2006

Faz uma hora que ele se arruma. Barbeou-se, tomou banho, vestiu a roupa melhor, está agora lutando com a gravata na frente do espelho. Aquilo não acaba nunca.
Por Flávio José Cardozo

– Não acaba nunca de se enfeitar, não? – pergunta a mulher.
Ele não responde. Ah, se fosse dar atenção a cada resmungo daquela mulherzinha… O problema é o nó. Sempre que bota gravata (dia de aniversário, enterro, fotografia), é uma tristeza para acertar o nó preferido, um gordo nó triangular que enche o pescoço e lhe dá uns ares importantes, fica até com jeito de político. Da última vez, no enterro dum amigo, não teve jeito, acabou indo com um nozinho infeliz, sem vista nenhuma, meio matuto, e por causa dele ficou o tempo todo inseguro, desconfiado.
– Precisa ir de gravata, precisa?
– Precisa, sim.
Hoje ela está implicando uma barbaridade, mais do que sempre implicou , e ele sabe a razão. Faz quarenta anos que briga por causa do capricho dele em se aprontar bem quando tem de sair, mas agora não é só isso.
– Quem que disse que precisa?
– Eu estou dizendo.
– Só tu mesmo. Ir de gravata pra tirar carteirinha de velho.
– Vou de gravata, sim, senhora. Tenho que tirar fotografia. Fotografia só tiro de gravata. Não aprendeu isso ainda?
Coitada: está com ciúme porque ele vai sair bonito na rua e morre de inveja porque não pode requerer ainda na Prefeitura a carteirinha que dá direito a andar de ônibus de graça. Ele compreende. Mas não precisava ela chatear assim, principalmente agora enquanto esta porcaria de nó de gravata ainda não ficou pronto.
– Eu acho uma bobagem velho tirar fotografia de gravata.
– Eu não acho.
– Se pra cara de velho ninguém olha, quem que vai olhar pra gravata?
Arghhhhh! Ele desfaz o nó e tenta mais uma vez. Precisamos ter paciência, camarada, senão estamos perdidos. Tens de fazer de conta que não estás escutando nada. Ela se morde de raiva porque tu tens idade pra andar de ônibus à vontade – e vais andar mesmo, e como vais! – e ela não tem ainda, só no ano que vem é que pode tirar a carteirinha. Paciência com ela, camarada.
– Isso aí que inventaram de velho andar de graça nos ônibus é uma pouca vergonha. Agora mesmo é que eles não vão parar mais em casa.
Esta última estocada ele nem escuta, porque – aleluia! louvado seja Deus na sua glória! – acerta o nó, finalmente. Sim, sim, é este aí mesmo, triangular, soberbo, como nos bons tempos. Dá ainda uns acabamentos, depois se penteia, bota o casaco. Vai sair, anda até a porta, depois volta, bota a mão no queixo da mulher, levanta a cabecinha dela. Que boba! Um ano passa logo, sua boba!
(Do livro Beco da lamparina, Florianópolis, Lundardelli / Diário Catarinense, 1987) 


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