Pazes

Publicado em: 24/05/2005

Não quis acreditar no que via: era a Odete. Quem estava desfilando e aparecia de frente, na transmissão da tv, mostrando tudo para o bom povo ver, era ela, sua noiva Odete.
Por Flávio José Cardozo

Traidora, mulher sem palavra, devassa.

– É ela, mãe – gemeu, suado na cama, batendo no gesso que lhe envolvia a perna com uma raiva que nunca teve antes na vida.
– É, sim, é ela – confirmou a velha.
– Fazer isso comigo, a falsa. A gente ia desfilar juntos, com esta praga do acidente não pude ir, ficou então combinado que ela também não ia. Mas foi, a fingida.
– É, é. Ih, como ela rebola, filho!
– Desliga isso, mãe, desliga.

Não podia acreditar naquilo. Ela veio visitá-lo sábado, domingo, segunda, falou que no último dia ia vir também. Coitadinho, quebraram a perninha do meu neguinho, a sem-vergonha ainda disse. Não veio na terça. Estava ali, no desfile, mostrando tudo. E ele todo preocupado: o que será que está acontecendo com a minha nega Odete que ela está demorando tanto? Demorando…
– Nojenta.
– Calma, filho. O que é que se vai fazer?
– Eu sei o que é que vou fazer. Eu sei, mãe.
– Sossega o sangue, filho. Amanhã ela vem aqui. Vocês conversam.

Pois é hoje, então, que ela vem, quarta-feira. Vem mesmo, a descarada. Aí está. A mãe saiu, foi ali na venda comprar pão. São quatro da tarde. Odete entra. No andar da bandida, um pouco de ginga, um pouco de cansaço. Os olhos são de quem dormiu tarde e acordou tarde. Depravada.
– Mentirosa – ele diz, assim que ela senta na cama e pousa a mão no desgraçado do gesso e se prepara para lhe dar um beijo. – Mentirosa.
– Eu?
– Não, eu. Então não te vi na televisão? Mostrando tudo, feito uma perdida.
– Eu?
– Escandalosa. Nega exibida.
– Eu?

Odete se levanta. Vai até um toca-discos que o noivo tem no quarto, procura uma boa música, bota um pagode com a Jovelina Pérola Negra. Põe-se a dançar.
– Sua suja.

Jovelina canta, Odete está leve dos pés, nem parece que se gastou tanto ontem à noite, o sambão sai que é uma beleza. Eta nega danada! O noivo olha, não fala. Ela vem mais pra perto, é como uma fera, pantera, querendo pegar um bezerro, um bezerro, coitado, com um gesso que desce do alto da coxa até o último dedo.

Jovelina canta, Odete tira a roupa, ele estica os olhos para a porta, ela vai e chaveia. Nega descarada.

– Diaba – ele ainda diz, ela se chegando, se chegando, a perna dele pesada, porcaria, a mãe agora batendo, filho, filho, umas seis vezes, Jovelina cantando alto, e a mãe já entendendo que a Odete veio, a mãe sabida entendendo que aquilo que está ali no quarto é a santa paz da quarta-feira de cinzas, bem que eu falei, meu filho, que ela hoje vinha aqui e que vocês conversavam.
(Do livro Senhora do meu Desterro, Florianópolis, Lundardelli / Fundação Franklin Cascaes, 1991)


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