Pé de melancia

Publicado em: 27/03/2011

Quando Flávio José Cardozo brindou seus leitores com uma crônica memorável sobre a “arte de comer melancia”, duvido que algum deles não tenha ficado com água na boca. Não só pelo objeto de sua história, uma das frutas mais saborosas desses trópicos, mas por conta da maestria usada para contar como seu pai, no calorão de Guatá, seguia o cerimonial que terminava no momento supremo de se refestelar com a sobremesa resfriada desde a véspera no tanque de lavar roupa. A forma de calar a melancia, a agitação dos pequenos, a rigidez do hábito paterno – tudo era repetido a cada domingo, dia reservado àquele ritual sagrado e imutável.

Me lembrei desse texto quando, contra todas as expectativas, vingou um pé de melancia num lote que tenho em Governador Celso Ramos. No começo, as sementes jogadas no quintal renderam raminhos que torravam ao primeiro sol forte da estação. O aterro ressecado também não contribuía, e lá se ia a esperança de uma colheita mínima, quem sabe um fruto de tamanho médio, para ser namorado toda semana, na medida em que se desenvolvia.

Mas eis que num canto do terreno, onde já houve o resquício de um sambaqui, vicejou um belo exemplar que gerou quatro rebentos – um deles com tamanho semelhante ao das melancias que vêm de longe, acomodadas no balanço da carroceria. Desconfio que os bons fluidos do pajé que ali enterrou seus mortos, entre conchas e martelos rudimentares, ajudaram bastante. E que o pequeno matagal que minha preguiça impediu de capinar protegeu a rama desde o início, garantindo o bom êxito da empreitada.

Agora, nos fins de semana, a cada meia hora alguém vai lá, confere, apalpa, vê se o talo secou, sinal de que a hora da degustação está chegando. E há quem cubra o pé com capim, temeroso de que algum gaiato passe e leve tudo embora, ou destrua o que a mãe natureza tão bem colocou ali, sem exigir contrapartida.

Enfim, o terreno onde a capoeira era soberana, até dois anos atrás, começa a ganhar uma fisionomia decente. Teimosos, uns pezinhos de pitanga, canela e fruta do conde ameaçam dar certo. O projeto da laranjeira foi podado pelas formigas, e as flores vêm aos poucos, alheias à pressa de quem fez a semeadura.

Sobra ainda a fé depositada na cebolinha e em uma ou outra muda que nasça sozinha, por causa das sobras atiradas em um canto, a título de adubo. Por ora, o sucesso é mesmo o das melancias, que merecerão, no devido tempo, um ritual semelhante ao de Guatá – mas sem o requinte de seu Cardozo e a verve impecável do filho cronista.

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