PÉ DE VALSA

Publicado em: 12/03/2007

Entre os amigos mais íntimos ele era conhecido como Carlinhos Pé de Valsa.  O nome se justificava plenamente pelas excelentes qualidades de bom dançarino. Nos salões mais chiques da cidade ou nas boates escuras e nas danceterias da moda, Carlinhos era admirado pela elegância e a coreografia cheia de graça que despertava curiosidade das mulheres e um certo ciúme dos homens.
Por Jamur Júnior

No Chá Dançante de Engenharia que acontecia na Sociedade Duque de Caxias, Carlinhos se realizava ao som da Orquestra do Genésio onde os instrumentos de sopro davam vida à música, enquanto bailava leve e faceiro, diante de olhos atentos e curiosos. Dançava qualquer ritmo e com perfeição e grande classe. Preferia o bolero, pelo seu romantismo, dançando com muitas voltas, paradas rápidas, uma quebrada na companheira, rosto colado em algumas ocasiões e um requebrado sutil e quase erótico.
Carlinhos no salão era show para qualquer platéia.  Nas boates era disputado pelas moças da casa e quase sempre permanecia como convidado do proprietário que se encarregava de esquecer a conta de vários Cuba Libre, em troca do show desse dançarino espetacular.
Samba, bolero e tango, eram os ritmos preferidos pela maioria dos freqüentadores de salões de dança e clubes sociais. Tango e bolero eram os rimos que mais tocavam nas rádios, nos clubes, nas boates, na zona e nas danceterias, com destaque que nem o samba brasileiro conseguia.
Na Rua Barão do Rio Branco esquina com a Rua 15 de Novembro funcionava o Dancing Caverna Curitibana, onde dançarinos menos talentosos procuravam fazer algumas piruetas com as moças contratadas pela casa para animar os clientes. Funcionava o sistema de picotar um cartão com o tempo em que o dançarino permanecia na pista de dança com uma das funcionárias. No final passava no caixa para saldar seu debito. Carlinhos era o único que entrava, dançava e não recebia o cartão. Dançava de graça e era disputado pelas moças.
Dentro desse notável dançarino habitava um homem simples, afável e com extraordinário senso de humor.  Fazia excelentes comentários, a maioria deles ácidos e contundentes e contava boas piadas nas reuniões quase diárias na Boca Maldita de Curitiba, ponto de encontro de políticos, intelectuais, profissionais liberais, jornalistas e analistas com alto grau de especialidade em tudo.
O tempo passou e Carlinhos, casou, teve filhos, mas, não esqueceu de fazer o que mais gostava. De vez em quando dançava, com a mulher nos bailes dos clubes da cidade, sempre com a mesma graça e habilidade que o caracterizavam. Alguns anos mais tarde, a filha mais velha do nosso dançarino, casou com um vereador curitibano.
Festa concorrida com muitos amigos, vários conhecidos e alguns penetras, onde uma das principais atrações foi o pai da noiva dançando e sorrindo, numa homenagem à vida que lhe reservara tantos momentos de alegria e satisfação. Um detalhe nessa festa chamou atenção de nosso dançarino. Carlinhos ficou horrorizado com o genro que dançava com sua filha, de perna dura, braços esticados na direção do bico do sapato.
– Isto lá é jeito de dançar. Mas que camarada ruim de dança.- pensou.
Não se conformou em ter um genro péssimo no salão de baile. Decidiu, então, ensiná-lo em alguns fundamentos da dança para melhorar a performance e evitar mais vexames do novo membro da família. E começou a dar suas aulas, certo de que valia todo esforço para transformar o genro “perna dura” num bailarino leve e gracioso.
Num final de tarde o filho menor, com cerca 13 anos, chegando do colégio, ouviu a voz forte de Gregório Barrios cantando Besame Mucho. Era da Eletrola RCA Victor, instalada num local de destaque na sala de visitas, que saia o conhecido bolero na voz de seu famoso interprete. Quando o garoto abriu a porta da sala deparou com uma cena inusitada e pasmo com o que viu, arregalou os olhos e chamou atenção com a voz alterada.
 
– Pai, você dançando com o meu cunhado?
– E daí, estou ensinando ele a dançar, respondeu Carlinhos Pé de Valsa.
– Mas, de rosto colado, pai?
– E você já viu dançar bolero sem ser de rosto colado?


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