Pelé eterno… e universal

Publicado em: 23/10/2010

Quem o vê ainda acredita que ele possa entrar em campo e exercer sua majestade irreverente. O porte atlético, o sorriso aberto, o jeito mineiro – a pedra mais preciosa extraída das Minas Gerais -, o sotaque santista – onde a pedra foi lapidada – e o inconfundível “entende?”, ainda são os mesmos. Por onde ele passa, mesmo os que não assistiram seu reinado espalham pétalas de sorrisos amigáveis e agradecidos. Tive a felicidade de vê-lo jogar quando mingau de aveia ainda era minha comida favorita e não via motivos para distinguir pessoas, por qualquer razão que fosse. Só havia as boas e as más. Graças a Pelé, quando mais tarde alguém tentou justificar o preconceito, aquilo me pareceu tão sem propósito e coerência, que passei a nutrir um profundo desprezo, sim, mas pelos preconceituosos.

Pelé surtiu esse efeito em muitas pessoas, no Brasil e no mundo.

Até as torcidas adversárias, quando o atiçavam ou ofendiam, não era por preconceito, mas para extrair dele um novo momento mágico, uma nova obra-prima. Tanto que os mesmos que xingavam, aplaudiam de pé seus prodígios, agradecidos e deslumbrados. A dor do adverso existia, mas o fascínio era um bálsamo que aliviava seus efeitos. A sabedoria popular sabe que não há arte sem inspiração!

A paixão de Pelé pela bola foi tão grande, que até goleiro ele foi para poder abraçar sua maior amada! Mas sua ascensão ao Olimpo não foi fácil: Pelé foi caçado, às vezes abatido de forma covarde e desleal, mas nunca se abateu perante os desafios do esporte e da vida. O físico extraordinário, a visão privilegiada – apesar da miopia mínima -, a percepção quase premonitória, a orientação – no tempo certo – dos mais experientes e a imprevisibilidade do gênio foram complementados pela malícia do revide preciso e pedagógico.

Quando eu e meu filho, então com dez anos, vimos “Pelé Eterno”, foi um festival de emoções e gargalhadas incontidas. Em dado momento ele olhou para mim, com um largo sorriso do rosto, e comemorou: “- E ele jogou no nosso time!”.

Pelé tem essa aura de eternidade, que expõe sorrisos espontâneos, que parou guerras e curvou poderosos. Só ele era capaz de lotar estádios com pessoas de todas as raças, etnias, credos, ideologias e nacionalidades sem que isso fizesse a menor diferença para uns ou outros. Mais que isso, fez com que trocassem sorrisos e abraços, e gritassem, em uníssono, a mesma palavra: Goooool! 

Que grande embaixador do ecumenismo e da paz universal! Que grande maestro de platéias, que ao seu comando, preciso, gritavam ou calavam. Pensando bem, existe uma divina coerência e propriedade no nome dos dois times que Pelé defendeu profissionalmente: Santos e Cosmos!
Defeitos? Vão encontrar muitos! Mas quem não os tem? Como figura pública, o peso de seus atos e palavras é muito maior. Mas pouquíssimas personalidades souberam conduzir sua carreira de forma tão sóbria e correta, apesar do assédio selvagem a que sempre esteve sujeito, desde a adolescência. Consciente de seu papel, foi um operário de sua arte exercendo-a dentro do campo e aperfeiçoando-a, fora dele. E nunca deixou de agradecer a Deus por ela!

O que mais surpreende é que Pelé veio de uma família humilde, mas sólida. Graças a esse diferencial ele pôde ascender ao estrelado, com a velocidade da luz, para transformar-se na estrela de maior grandeza do esporte mundial, sem sair da órbita de si próprio, e sem perder a noção de seu papel. Luz negra que realçou todos os detalhes da grande festa do futebol e foi cortejada por grandes líderes e artistas. Mas era nos braços do povo que encontrava o carinho ideal!

Será lembrado pela história que construiu; pelas 1281 vezes que balançou, oficialmente, as redes adversárias; pelos gols que não fez; pelos “gols de bandeja”; pela quantidade imbatível de títulos; pelas tabelinhas; pelos dribles improváveis, que faziam a alegria dos ortopedistas; pelas arrancadas fulminantes e pelos socos no ar, mas também por ter suportado as pressões e dores sem recorrer ou sucumbir ao vício. Por tudo isso seu nome jamais ficará perdido, nem na poeira da vida nem na bruma do tempo!
 
Pelé não precisa de altar, nem da devoção de fanáticos! Só pede que lhe prestem homenagens em vida. Nada mais justo para quem ensinou que o mundo – como a bola – só tem dois lados: o de dentro e o de fora; e que estamos todos dentro dele e devemos tratá-lo – e ao próximo – com o mesmo respeito e amor! E não precisa ser de Três Corações para fazê-lo… Basta um!
Salve o Craque Café! Salve o Rei do Futebol! Salve o Atleta do Século, que jogou no meu time e na minha seleção!

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