Perdidos e achados

Publicado em: 23/11/2005

Ela foi à farmácia comprar um creme para a pele e esperava o troco quando alguém, ligeiro como um corisco, carregou-lhe a carteira. Gritou mas o safado sumiu pelos lados do terminal de ônibus.
Por Flávio José Cardozo

Caiu então num pranto de entristecer o mundo. Depois soube que perto havia uma delegacia e foi lá  registrar queixa.
– E quanto ele lhe roubou, dona Madalena? – pergunta o delegado.
– Ai, doutor, uma fortuna. Não em dinheiro, não, não. Eu estava só com os 10 reais que dei pra pagar o creme. Dinheiro ele não levou – ai, antes fosse dinheiro.
O delegado quer sentir o gostinho das conjeturas: que fortuna será essa? um par de brincos com diamantes? um bilhete de loteria premiado? algum documento precioso? uma oração milagrosa?
– Era uma fotografia, doutor. Uma fotografia de muita estimação. Eu e o Geraldo juntos.
– Só isso?
– O senhor diz só isso? Não fale assim, doutor.
– Bem, uma fotografia…
Ela agita a cabeça com desconsolo:
– O senhor vai ter de achar minha carteira, doutor. Aquela foto era minha vida. Quantas vezes eu estava triste, olhava o Geraldo me pegando daquele jeito e…
– De que jeito, Dona Madalena?
Ela abana a cabeça, a saudade é transparente:
– Pela cintura, firme, rostinho colado. Estávamos  dançando, foi na primavera de 55…
Dona Madalena se cala, como que ouvindo uma música lá longe. O delegado se pergunta: onde será que eu estava em 55?, ah, sim, estava servindo no Exército, e volta às conjeturas: será ela viúva, será solteirona, será o quê essa mulherzinha que, olhando bem, até que não está mal para quem já dançava em 55?
– A senhora é viúva? – indaga.
– Sou.
– E faz tempo que o Geraldo morreu?
– O Geraldo?
– Sim, o Geraldo, não é Geraldo o nome dele?
– Mas quem que disse que o Geraldo morreu?
– Ué!
– Meu marido é que morreu, ano passado. O Geraldo nunca mais vi desde aquele baile. Ele contou que era viajante, que estava hospedado no Hotel Lux, no outro dia fui lá, já  tinha ido embora. Depois vi a fotografia na vitrina do Foto Alvorada, com outras que tiraram do baile, comprei, depois casei e ela ficou 35 anos escondida até a morte do Afonso.
– Bonito.
– Pois é, também acho, e agora vem esse ladrão nojento e… O senhor tem de pegar esse nojento, doutor, de qualquer maneira!
O delegado explica que não é fácil. A esperança é que, não encontrando dinheiro, o ladrão jogue fora a carteira.
– Vamos ter fé. Temos aqui na delegacia um serviço de achados e perdidos. A senhora me procura uma ou duas vezes por semana pra saber se temos novidade. De repente…
Ela diz que sim e ele bota os óculos para olhar, de mão no queixo, o balanço que ainda é bom naquele corpo que se afasta. Amigo das conjeturas, fica pensando: sendo eu, por novelesco capricho do acaso, também chamado Geraldo, e por acaso também viúvo… hein? hein?
(Do livro  Uns papéis que voam, São Paulo, FTD, 2003)


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