Polaco sapateiro

Publicado em: 19/08/2007

Era uma das figuras mais conhecidas da cidade. Polaco Sapateiro tinha um nome complicado para pronunciar e acabou ficando assim mesmo: Polaco Sapateiro. Não se importava com isso. Trabalhava com afinco para atender a grande freguesia em sua pequena sapataria. Conhecia os problemas da comunidade pelo pé. Sabia quem tinha calo duro, joanete, pé chato e chulé.
Por Jamur Júnior

Era o único na pequena cidade dos Campos Gerais, no Paraná. e já estava há muito tempo nesse ramo. Relacionava-se muito bem com a população. Costumava cobrar pouco por seu trabalho e muitas vezes fazia o serviço fiado.
Naquele tempo poucos cidadãos da comunidade tinham dinheiro para cobrir esse tipo de despesa. Consertar o velho calçado era uma forma de economizar dinheiro e continuar andando bem, com firmeza e equilíbrio sobre um bom  sapato feito com carinho e maestria por esse artesão afável e compreensivo.
Os sapatos feitos por Polaco Sapateiro duravam uma eternidade, segundo alguns moradores do local. Feitos com matéria prima de boa qualidade e muito esmero na confecção , eram calçados fortes, resistentes e acima de tudo confortáveis. Polaco conhecia alguns de seus fregueses pelo jeito de andar, ou melhor, pela batida do salto no calçamento de pedras irregulares em sua rua. O toque-toque que saia de um salto alto indicava, pela sua velocidade ou a força da batida, quem era a mulher que vinha chegado.
A popularidade de Polaco Sapateiro levou alguns políticos da cidade a convidá-lo para disputar uma cadeira na Câmara de Vereadores. Considerou uma deferência muito especial e aceitou de pronto o convite.
A partir desse dia a vida de Polaco Sapateiro começou a mudar. Membros do partido tinham sempre um conselho de como deveria conduzir sua campanha eleitoral.
Começou tendo que reduzir o horário de trabalho para fazer algumas visitas a amigos e clientes, sempre pedindo votos. Quando a campanha já estava com mais da metade vencida, Polaco sentiu que precisava de algo mais para garantir sua eleição. Teve a idéia de distribuir botinas a seus novos eleitores. Fez os cálculos e concluiu que precisaria de 200 votos para se eleger.
Mandou comprar em Ponta Grossa 400 pares de botinas de vários números e começou a fazer a distribuição. Por medida de precaução entregava apenas um pé da botina e prometia o outro para logo após a apuração das urnas. Com isso pretendia garantir o voto de cada um dos beneficiados. Em pouco tempo Polaco ficou com quatrocentas botinas de um só pé.
Veio o dia da eleição, com o candidato otimista, ouvindo grandes elogios de seus correligionários de partido que garantiam sua eleição, depois da estratégica decisão de dar botinas em troca de votos.
Gastou sorrisos e sola de sapato visitando todos os locais de votação no dia da eleição. Às seis horas da tarde começou a apuração dos votos.
Polaco começou a ficar nervoso com a falta de deles em urnas onde tinha certeza de que seria o vencedor. Numa delas, onde distribuiu 40 botinas, teve apenas cinco votos.
O resultado final foi desolador; Polaco Sapateiro perdeu feio a eleição e ficou com um estoque de quatrocentas botinas sem par. Alguns dias após o resultado da eleição, uma emissora de rádio da cidade começou a transmitir anúncios de pessoas que desejavam vender o pé esquerdo de uma botina para quem tivesse o pé direito.
 


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