Por um prato de comida

Publicado em: 19/03/2014

No meu imaginário o prato e comida ocupa lugar instigante. O que ocupa espaço em nossas mentes raramente ali está só por um motivo, as causas são múltiplas. Um fator forte para essa questão do prato de comida é que fui educado tendo o alimento como algo sagrado: nada, absolutamente nada, do grão de arroz ao farelo de pão, podia ser desperdiçado. Serviu no prato coma, mesmo que vomite depois.

Outro fator se relaciona, talvez, à humilhação de esperar de terceiros o prato de comida do dia a que se tem direito. A dúvida quanto aos suprimentos de amanhã ganha contornos de tortura (sem força de expressão). Quem não passou por tal circunstância, mesmo por período curto, não tem ideia do significado disso. Não há como esquecer essas coisas! Sim, veio o prato de comida, mas veio também o apoio para superar a dramática situação de penúria – com enorme sacrifício, registre-se – com o que restam as lembranças do sofrimento, mas nenhuma vergonha!

O que mais era alcançado ao escravo no passado? O que mais era repassado ao peão de estância no passado? Tinham provedores, mas não eram cidadãos emancipados, eram tratados como bichos. Eram duas situações que, na pauta das nossas conversas de revolucionárias nos tempos da ditadura, serviam de exemplo para nossos sonhos sobre o tipo de sociedade que construiríamos. Em nossa opinião o prato de comida seria apenas o primeiro passo, não teria sentido algum alcançá-lo sem que ele fosse libertador das amarras da pobreza, da ignorância e, acima de tudo, da opressão que esmaga vontades.

Pão e liberdade tem algo mais altivo, mais nobre? Nossos lideres garantiam que isso seria possível se um dia chegássemos ao poder! E nós chegamos… E ai???

E fora as duas situações – de peão e escravo – sou de um tempo em que muitos trabalhavam por um prato de comida. Quando havia um copo de leite, então… E muitos dos que conheci nessa situação foram longe em termos de ganhos econômicos, deram a volta por cima porque havia algo mais. Mas é um tempo (trabalhar por um prato de comida) que passou, ou deveria ter passado!

Entre os anos de 1950 quando guri de calção e chapéu de palha subia no arado de bois para forçar penetração da lâmina na terra úmida e os dias de hoje a agricultura deu salto extraordinário e não há justificativa para que falte alimento a quem quer que seja. Quando conto que nos anos de 1970 fiz matéria especial em lavoura de trigo gaúcha que fechara a colheita com média de 1.100 quilos por hectare o cidadão sorri.

O que evoluímos em insumos, sementes, máquinas, trato do solo desde então é tão espantoso que só a ignorância, a tirania, a incompetência, a covardia, o oportunismo, a corrupção, a demagogia dos governos mantém milhões em situação de inanição.

Assim, qualquer esforço governamental para impedir que falte o alimento na mesa de qualquer pessoa é sempre bem-vindo, impossível ser contra. Mas há um detalhe transcendente sem o qual a nobreza do gesto desaparece: é preciso estar determinado a fazer com que essa mesma pessoa se torne pescador logo adiante.

Reitero: o que discutíamos no período de exceção como agentes da revolução a ser implantada no Brasil, difere do Bolsa Família que vai assumindo a conotação de provedor que não emancipa – o pão chega e não está trazendo liberdade. Isso aquela direita que condenávamos sabia fazer com maestria, não é necessário imitá-la…

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