Por uma Mídia mais humana e holística

Publicado em: 09/02/2005

“Comparado com o de antigamente, o jornalismo de hoje tem problemas novos, que reclamam novas competências, e que exigem, por sua vez, ferramentas conceituais e habilidades mais sofisticadas…”
Por Mário Xavier, de Florianópolis*“…Até por isso, precisamos, sim, de profissionais (de todas as idades) que busquem e continuem a acreditar no idealismo que vincula o jornalismo à elaboração de um mundo ético” – Carlos Chaparro.

O jornalista Carlos Chaparro não perdeu a fé numa prática profissional fundamentada na competência e no caráter ético de uma imprensa comprometida com a verdade, com o bem-estar e com a dignidade humana. Posturas e mensagens similares continuam a fazer eco e a inspirar gerações de jovens que buscam ingressar, cada vez mais, nas faculdades de Comunicação e Jornalismo em todo o país. Se existem vagas convencionais de trabalho para todos os graduados, e que tipo de mercado dispomos hoje, são questões a serem analisadas de forma atenta e crítica.

Apenas em Santa Catarina, já são 10 instituições de ensino superior em Comunicação, que admitem anualmente cerca de 800 novos alunos. No último vestibular da Universidade Federal, em 2004, a opção por Jornalismo foi a quarta mais concorrida, com 20 candidatos por vaga: praticamente empatada com Direito, e abaixo apenas de Medicina e de Cinema. Hoje, estima-se que haja pelo menos 2.000 jornalistas em atuação no mercado catarinense, sendo que cerca de 50% associados ao Sindicato da categoria, que completa 50 anos neste 2005. No país todo, são cerca de 50.000 profissionais e outros 40.000 estudantes universitários em formação.

O Jornalismo continua a exercer, portanto, grande atração na alma e nos ideais de muita gente disposta a enfrentar a nem sempre fácil – e aparentemente glamourosa -profissão de comunicador social, operário intelectual da informação, não raro imbuído do espírito de “funcionário da Humanidade”: a serviço diuturno da cidadania, da pluralidade de idéias, da liberdade de expressão, da defesa dos direitos humanos, dos contribuintes e consumidores deste paradoxal Brasil do século XXI.

Entretanto, ao mesmo tempo em que os meios de comunicação contemporâneos nos abriram possibilidades no campo da cultura, da política, da economia e em todos os demais setores da vida humana, “o cenário da globalização econômica e dos avanços técnico-científicos ainda é marcado por um desequilibrado sistema de valores que deixa grande parte da população do mundo em condições subumanas”, como sustentam Carlos Alberto Rabaça e Gustavo Guimarães Barbosa, organizadores do Dicionário de Comunicação (2002).

É mais do que tempo de nos perguntarmos, portanto, de que forma a Comunicação e a Imprensa vêm sendo utilizadas até o momento, e que papel social mais justo e construtivo, solidário, ainda deveriam e poderiam exercer nos anos à frente.

Observação e auto-observação

No prefácio do livro “Santa Catarina, Padroeira – Tesouros do Sinai”, do jornalista Moacir Pereira (2003), Rodrigo de Haro afirma que: “A arte do jornalismo é muito ampla e abrangente. Diversos gêneros a ilustram. (…) Cada vez mais afastados do tempo e da reflexão, e até do simples desfrute das coisas mais simples, precisamos com urgência de quem traga até nós uma interpretação clara dos fatos que são, em nossa pós-modernidade, obscuros ou desesperadamente ambíguos”. E assinala: “A serenidade, a exposição lúcida e uma impecável honestidade são elementos indispensáveis para o verdadeiro jornalista. Sua poética transita entre a clarividência e didática”.

Para estancar e reverter o processo de deterioração de valores e distanciamento da alma humana, o Jornalismo e a Mídia talvez precisem se inspirar não apenas na visão artística e poética, mas também em outras ciências, em outros olhares e abordagens para melhor entender a crise e os dilemas que se mostram cada vez mais evidentes. O médico Dráuzio Varella, por exemplo, declarou que “medicina e jornalismo têm coisas em comum: ambas se baseiam na observação”. Diz ele: “O bom jornalista é aquele que, em meio a um fato, busca um detalhe para enfatizar a notícia. Os médicos precisam ver como as pessoas reagem e como falam. Não existe bom médico sem um bom olhar clínico”.

Como será que anda o olho clínico dos jornalistas, da Imprensa, da Mídia, para interpretar as reações das pessoas, o que elas almejam, o que elas sentem, o que elas precisam, o que elas esperam da vida, dos governos, dos entes sociais? Como será que anda o olhar observador dos comunicadores para auscultar àquilo que realmente toca à alma, à mente, às emoções, ao corpo do ser humano, em sua busca de mais saúde, felicidade autêntica, paz, harmonia, serenidade, equilíbrio social, valores mais consistentes e perenes do ponto de vista espiritual, psicológico, transcendental?

Não seria interessante nos movermos um pouco mais de volta ao estudo e à prática das Ciências Humanas, da Filosofia, da Psicanálise, das psicoterapias de vanguarda? Não seria momento de praticarmos um tipo de observação e auto-observação mais qualificadas, refinadas, discernidas: ao mesmo tempo sensíveis, intuitivas, racionais e transdisciplinares? A sociedade não merece uma Imprensa e uma Mídia mais humana e holística?

(*) Mário Xavier é jornalista graduado pela UFRGS em 1982, e filiado ao SJSC desde 1985, quando passou a atuar na imprensa escrita catarinense. Este artigo foi publicado originalmente pelo Papel Jornal, n° 41 – jan/fev 2005, do Sindicato dos Jornalistas do estado de Santa Catarina.

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