PRB-2: as muitas casas da Club

Publicado em: 01/04/2012

Memória | Capítulo 13 | Parte 11 | Entrevista do autor *

Marlon – Qual a sua opinião sobre o radiojornalismo atual? | Ubiratan – Tecnicamente é bem melhor, tem mais recursos e modernos equipamentos que permitem um trabalho melhor. Hoje os profissionais são mais preparados, pois estudam para isso.  Antigamente, os locutores faziam de tudo um pouco, inclusive reportagens e noticiários. A gente fazia o que os mais antigos nos ensinavam e o que nos ditava o instinto. Hoje, o “faro” continua sendo útil e necessário, mas os recursos são extremamente melhores e facilitam a atividade dos profissionais que são especializados.

Marlon – Emocionalmente, é tão bom quanto antes?
Ubiratan – Eu acho que sim. Quem gosta do que faz, sempre se emociona. Seja ao escrever um artigo, ao fazer uma reportagem, sempre o lado emocional é que nos leva para a frente e para o sucesso. Quem não se emociona com o que faz não alcança tudo o que pode, não dá tudo de si, e também não produz coisas emocionantes. O radiojornalismo não pode prescindir desse item.

Marlon – Compare o radiojornalismo de hoje com o da sua época.
Ubiratan – Pode-se dizer que éramos amadores. Bons amadores. Superávamos as deficiências da época com o entusiasmo e o amor pelo que fazíamos e, assim, fazíamos um bom trabalho. Os gravadores eram enormes e pesadíssimos, os microfones também eram grandes. Não havia satélite, tudo era feito por linha telefônica e nem sempre com boa qualidade de som. A Internet não existia. Muita notícia se obtinha com rádio escuta, sintonizando emissoras do Brasil e do exterior. A Rádio Marumby, onde comecei minha carreira, foi a primeira a utilizar Walkie-Talkie, o emissor e receptor portátil, e muita canseira eu passei, pois os aparelhos eram pesados e incômodos. Seu alcance era limitado. Mas foi um avanço.

Marlon – A falta de tecnologia atrapalhava?
Ubiratan – Dificultava o nosso trabalho. Era mais difícil fazer as coisas. Nós nem imaginávamos como seriam os recursos de hoje e, por isso, eles não nos faziam falta. É evidente que tendo hoje mais recursos técnicos o trabalho pode ser feito com mais rapidez, mais qualidade e mais riqueza. Mesmo assim, muita coisa se fazia na base na improvisação e acabava dando certo. Diversas vezes eu entrevistei participantes de corridas de bicicletas de longo alcance durante a realização da corrida. Ladeávamos o carro de reportagem com a bicicleta de um corredor que se destacasse dos demais, eu aproximava do corredor o microfone amarrado num cabo de vassoura. E saía a entrevista.

Marlon – A evolução da Internet pode modificar o radiojornalismo?
Ubiratan – Para a obtenção de informações com mais rapidez, mais detalhes, certamente será de grande valia. Aumentará o campo de ação dos jornalistas, será uma poderosa arma para realizarem seu trabalho, mas não afetará a audiência do radiojornalismo. As pessoas continuarão preferindo ouvir as notícias pelas emissoras. É mais cômodo ouvir do que ler. Mesmo quando a notícia vem com som na Internet, para irmos a um site jornalístico perdemos mais tempo do que ligando nossa emissora preferida.

Marlon – Conte alguma história envolvendo a falta de tecnologia da época.
Ubiratan – As Emissoras enviavam o som dos estúdios para os transmissores por linhas telefônicas. O serviço telefônico não tinha a qualidade de agora e com frequência havia pane nas linhas. No início dos anos 50, eu ainda era novo na Rádio Marumby, onde iniciei minha carreira, e algumas vezes fiz companhia ao nosso técnico Herbert Rüllei para desembaraçar as linhas. Quando havia vendavais os fios se enrolavam e a Rádio saía do ar. Às vezes isso acontecia durante a noite, e era uma tremenda mão de obra encontrar os embaraços. Às vezes a emissora só voltava ao ar no dia seguinte. Só mais tarde é que conhecemos os links que levam o som do estúdio para os transmissores sem problemas e com excelente qualidade.

(Entrevista concedida pelo autor deste livro a Marlon do Valle, então segundanista do curso de jornalismo do Centro Universitário Positivo – UnicenP. O trabalho foi feito para a matéria de Edição e como o assunto pode interessar a outros estudantes, a entrevista é reproduzida acima).

Ubiratan Lustosa. O Rádio do Paraná – Fragmentos de sua história. Instituto Memória, 2009. Curitiba. www.institutomemoria.com.br

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