PRB-2: As muitas casas da Clube

Publicado em: 18/03/2012

Memória | Capítulo 13 | Partes 8 e 9 | O rádio e a história do Paraná e o Visitante Ilustre

29 de agosto de 1853. O Imperador D. Pedro II sanciona a Lei 704, elevando a Comarca de Curitiba à categoria de Província, com o nome de Paraná. 19 de dezembro de 1853. Instala-se a Província do Paraná e é empossado o seu primeiro Presidente, Zacarias de Góes e Vasconcelos. 19 de dezembro de 1953. Com inúmeras festividades comemora-se o Centenário de Emancipação Política do Paraná. As Emissoras de Curitiba deram ênfase a essas comemorações. Entre outros, foram lançados os seguintes programas:  “Paranismo” – de autoria de Paulo de Avelar, pela Rádio Clube Paranaense | “Valores Novos do Centenário” – pela Rádio Guairacá | Wanderley Dias, excelente produtor da Rádio Guairacá, lançou alguns programas de excelente qualidade, entre os quais “Os Troncos dos Pinheirais” | “Sob o Céu de Curitiba” – pela Rádio Marumby | Zé Pequeno, popular cantor e músico que na época atuava na Rádio Marumby, lançou com êxito o “Baião do Centenário”, de sua autoria | “Os Caçulas da Serra”, também da Rádio Marumby, fizeram sucesso com o samba “Heróis da Emancipação”.

Para lembrar essa movimentação de nossos radialistas, eis a letra desse samba comemorativo:

HERÓIS DA EMANCIPAÇÃO

Música de Herculano de Oliveira (Francelino)

Letra de Ubiratan Lustosa

Interpretação de “Os Caçulas da Serra” – 1953

(Declamação)

Faz muito tempo! Lá da terra parnanguara

partiu o grito que, até então, ninguém ousara

levar aos céus pra defender este rincão.

Ganhando altura pelas asas do idealismo

o brado altivo, trescalando paranismo,

pra nossa terra pediu emancipação!

(Canto)

E foi assim que começou a caminhada

pela pedregosa estrada

da luta pelo ideal.

Do Paraná ilustres filhos batalhavam,

mostrando que cultuavam

da liberdade o fanal.

Gonçalves Rocha e ainda Inácio Lustosa

por essa causa gloriosa

fizeram conspiração.

Do brado altivo se encarrega Bento Viana

e, valente, um dia proclama:

– Queremos separação!

Carneiro Campos, Correia Júnior, Paula Gomes,

Cruz Machado, são mais nomes

que devemos relembrar,

e nestes versos, tão despidos de beleza,

queremos, com singeleza,

sua memória louvar.

Salve, gigantes! Salve, heróis da nossa História!

Lutando por nós, da glória

seguistes o itinerário.

É o Paraná que vos saúda vitorioso

na data em que, orgulhoso,

festeja seu Centenário!

Mais uma vez os radialistas paranaenses foram participativos e o Rádio do Paraná ajudou a escrever a nossa História.

PARTE 09 | VISITANTE ILUSTRE

Quando eu era diretor artístico da Rádio Clube Paranaense, certo dia, inesperadamente, recebi a visita de um maestro que eu admirava, mas ainda não conhecia pessoalmente. Antes de me dizer quem era, ele me falou:

–           Minha visita é motivada por duas coisas: saudade e gratidão.

–           O senhor trabalhou aqui? – eu lhe perguntei. E ele me disse:

–           Não trabalhei aqui, propriamente, mas durante muito tempo, quando era adolescente, eu vim quase diariamente à Rádio Clube para estudar. Eu vinha estudar no piano da emissora. Sinto muita saudade daqueles tempos e gostaria de vê-lo. Ele ainda está aqui?

Ainda estava, e fomos ao palco para que ele matasse a saudade daquele grande piano que havia sito fabricado para uma exposição internacional e que a Bedois acabara comprando. Dedilhando o instrumento, que mantínhamos sempre afinado, ele falou:

– Eu sou muito grato à Rádio Clube Paranaense, pois grande parte do que sou eu devo a este piano… E à gentileza dos diretores da Rádio que me permitiram usá-lo.

O Maestro que nos visitava, saudoso e agradecido, era o grande, o já consagrado Alceu Bocchino.

Fiquei impressionado com a singeleza com que falou da sua adolescência. Para se ter uma idéia da grandeza desse homem, basta lembrar que ele foi, como compositor, membro efetivo da Academia Brasileira de Música, pertenceu à Academia Brasileira de Arte, presidiu a Comissão Artística da Orquestra Sinfônica Brasileira da qual foi regente titular, foi um dos fundadores da Orquestra Sinfônica Nacional e por muito tempo seu regente. Foi ainda professor e fundador da Academia de Música Lorenzo Fernandes e orientador musical da Rádio MEC.

Quando Alceu Bocchino foi para o Rio de Janeiro o seu talento foi logo reconhecido por Villa Lobos e, com o apoio inicial do mesmo, logo alcançou o sucesso e a consagração.

Tom Jobim revelava com orgulho que tivera aulas com Alceu Bocchino. Esse mesmo orgulho era manifestado pelas integrantes do “Trio Madrigal” por Bocchino organizado. E o mesmo respeito foi sempre demonstrado pelas orquestras nacionais e internacionais magistralmente regidas por Alceu Bocchino.

Esse paranaense de extraordinário valor, após tantos anos, tantas viagens e tanto sucesso, sentia saudade do velho piano que a Bedois lhe emprestara e manifestava a sua gratidão.

Na verdade, os realmente grandes são simples e se tornam inesquecíveis.

Ubiratan Lustosa. O Rádio do Paraná – Fragmentos de sua história. Curitiba, 2009. Instituto Memória, Editora e Projetos Culturais. 41 – 3252 3661. www.institutomemoria.com.br

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