Primeiros acordes – 1

Publicado em: 18/05/2013

Ilha de Meu Som | Em busca do caminho

Márcio Santos

Foto internet

Aprendi violão olhando as mãos ágeis de meu avô deslizar pelas cordas de seu impecável Di Giorgio, já que meu aprendizado de piano, no Colégio Imaculada Conceição, fora interrompido pelo falecimento da irmã Valtrudes, minha sereníssima e paciente professora, que fora a São Paulo fazer uma cirurgia que lhe fora fatal.

Tentava tocar qualquer coisa que ouvia, pois morando numa casa onde, além de meu pai (bastante versátil em seu gosto musical) e meu avô seresteiro, cada tio tinha uma preferência: tio Orildo gostava de clássicos e música regional (como Inezita Barroso e Luiz Vieira); tio Ney, que tivera experiências de palco, cantava as nordestinas e country; tio Lili, ainda, de bossa-nova, musicais da Broadway, Agostinho dos Santos e Dolores Duran, e paródias político-sociais (tipo Juca Chaves); além de minha tia e minha mãe que cultivavam o popular.

Já no início da década de 60, após o famigerado exame de admissão, ingressei no Colégio Catarinense, onde reiniciei as aulas de piano com o padre Tomé, logo substituído pelo professor Cancelier, cujo grande defeito era discriminar os alunos filhos da burguesia daqueles menos favorecidos, como era meu caso. É claro que em poucos meses desisti de ser humilhado por aquele energúmeno e novamente voltei-me ao violão, em casa, sozinho ou acompanhado por um vizinho, Paulo Antonio, com quem trocava idéias e compunha minhas primeiras e insípidas canções.

Mas foi lá no Catarinense que tive meus primeiros vislumbres artísticos: estava eu, numa das tardes  quando cumpria a “prisão” (castigo institucionalizado praticado pelos alunos indisciplinados, que tinham que voltar após o almoço para copiar páginas e paginas de livros escolhidos pelos professores), quando ouvi, pelos alto-falantes externos, uma música diferente de tudo o que já ouvira antes; no final do castigo, me dirigi à secretaria do estabelecimento para saber quem era que tocava aquilo. O padre-prefeito – Montenegro – disse-me que um dos alunos, em férias na Inglaterra, trouxera um compacto simples de um novo conjunto que iniciava sua carreira de grande sucesso, chamado The Beatles. Aquilo mudara totalmente minha concepção musical e procurei conhecer um pouco mais daquele grupo.

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