PROCON para ouvintes de rádio

Publicado em: 15/06/2009

O artigo publicado em Caros Ouvintes na semana passada por Francisco Djacyr Silva de Souza, vice-presidente da Associação dos Ouvintes de Rádio do Ceará, ligou o sinal de alerta. Será que o ouvinte de rádio é passivo demais?

Será que não está na hora de começar a exigir seus direitos e criar um PROCON para defender seus interesses como ouvinte? O próprio Djacyr faz a sugestão e convoca a todos para o debate. Particularmente sou cético.

Houve um momento na história recente do Brasil em que o rádio desempenhou um papel importante de conscientização, de cidadania, de patriotismo e coragem. Foi na década de 1960, a partir da Rede da Legalidade no Rio Grande do Sul, através da Rádio Guaíba, até a Rádio 9 de Julho em São Paulo com a voz firme de D. Paulo Evaristo Arns ou Rádio Olinda de Pernambuco, com os discursos contundentes de D. Helder Câmara, ou mesmo rádios como Mayrink Veiga, São Paulo, Piratininga, Marconi, apenas para citar algumas, todas fechadas pelo governo militar.

Os mentores intelectuais da revolução concluíram que não bastava fechar rádios formadoras de opinião e calar corajosos comunicadores. Era preciso criar “outro” meio de comunicação que desse o necessário circo à população, que a imbecilizasse intelectualmente e, assim, dominar a sociedade, criando uma cultura de consumo, banalizada e intelectualmente burra.

Para esse intento, os donos do poder precisavam de parcerias. Foram buscá-las em empresários de comunicações, políticos e banqueiros adesistas. Esses, por sua vez, indicavam seus compadres e amigos de confiança e assim se criou a maior rede de lavagem cerebral do país, com as concessões de FM a partir da década de 1970. Eram emissoras locais, sem grande alcance, que, nas mãos dos “radiodifusores” rigorosamente selecionados, transformaram esse importante meio de comunicação numa fonte de ignorância e alienação.

Não havia qualquer compromisso com a cultura, com a formação intelectual, com o sadio divertimento.  O resultado é este conjunto desconcertante de rádios, quase todas medíocres, mal feitas, sem criatividade e caixas de repercussão daquilo que de pior se produz culturalmente neste país.

Hoje, políticos, aventureiros, oportunistas e incompetentes dominam praticamente todas as rádios, com algumas exceções que confirmam a regra. Não sabendo exatamente o que fazer com suas rádios, eles arrendam, emprestam, cedem, vendem, tudo à margem da legislação, até porque o poder concedente não tem estrutura nem competência para gerir esse monstrengo que se formou. E pensar que alguns radiodifusores ainda ficam indignados com A VOZ DO BRASIL, quando o verdadeiro autoritarismo são as concessões nas mãos de quem estão.

Nesse triste quadro, não vejo que tipo de influência o apelo popular pode ter. Eles (poder concedente e donos de rádios) estão de mãos dadas neste conluio maldito que não sinaliza qualquer possibilidade de mudança.

As tais redes que o colega Djacyr cita, também não estão preocupadas com os espaços locais ou a qualidade final de sua linha de produtos. Basta analisar o padrão de uma CBN, por exemplo, em São Paulo e o absurdo que ela representa em Salvador, onde moro. A CBN local é o anti-rádio, um exemplo acabado de irresponsabilidade , e a matriz geradora, aquela que franquia seus afiliados, e que deveria ser exigente com sua franqueada está pouco se importando com isso. Para ela (matriz) é mais importante ter a praça de Salvador para vender pacotes publicitários consistentes em São Paulo e Rio, do que exigir e cobrar pela qualidade. O resultado é que, ao final, até o anunciante que adquiriu o pacote publicitário, presumindo que seu anúncio estará inserido em todas as praças que comprou, dentro de um padrão impecável que ele conhece, acaba também ludibriado.

Sobre a questão das redes regionais, também citadas no artigo de Djacyr posso assegurar que é possível sim ter redes regionais consistentes, bem feitas, profissionais, com altíssima qualidade sem perder o “gosto” local. Há profissionais e há público para tanto. O que não há é vontade política e, sobretudo, não há empresário de radiodifusão com tal visão estratégica.

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