PROGRAMA BAZAR DE EMOÇÕES – MELODRAMA NO PASSADO E BOM HUMOR NO PRESENTE

Publicado em: 07/05/2007

Quando nosso grupo de discussão e de Radioteatro, do Projeto Cênicas na Rádio, optou por regravar peças dos áureos tempos dos radiodrama foi unânime nossa escolha por um melodrama, gênero que é o mais lembrado ao se pensar em radioteatro.
Por Joana Neitsch
Bolsista do Projeto Cênicas na Rádio

Escolhemos um episódio do programa Bazar de Emoções de Aldo Silva da série A Carta que Eu não Escrevi que, contava a história de um casal apaixonado, que enfrentava “grandes desafios”.
Sônia Maria e Fernando se conhecem em um elevador de um edifício de escritórios e ela pensa que ele é um profissional conceituado que trabalha lá. O casal passa a encontrar-se e se apaixona. Tudo vai bem, perfeitamente bem, até surgirem os conflitos. Por ter sofrido muito em sua infância, Sônia Maria tem trauma da pobreza. Fernando, porém tem um segredo: ele é pobre, é apenas um funcionário no escritório, até os ternos que usa para sair com Sônia são alugados. O mal entendido leva a revelações que colocam em risco a felicidade do casal e o ápice dramático é expresso na carta que Sônia escreve a seu amado e que nunca chegaria ao seu destino.


No ensaio Rosane Santolin e Pedro Alvarés passam o texto de A Carta que eu não escrevi.

“Crês que não te amo, por isso te recuso? Não querido, não é falta de amor, quero-te com toda a minha alma, mas tenho medo, um terrível medo da pobreza, por isso recusei-me a ser tua esposa.”
[trecho da carta que Sônia Maria escreve a Fernando]
O apelo sentimental é o principal foco da peça, mas é evidente a presença da diferença entre classes como pano de fundo. Hoje podemos ver como, no contexto da época, as conveniências e os preconceitos se impunham.
Ao fazermos a leitura da peça em grupo, a primeira reação foi de estranhamento. Ainda que muitos finais dos melodramas fossem infelizes, fazendo as donzelas e senhoras que os ouviam verterem lágrimas, hoje parece inconcebível uma história de amor -se é que existem histórias assim – ter um fim tão desolador por se submeter a tal tipo de tabu. Por outro lado também podemos refletir sobre de que modo os conceitos difundidos no maior instrumento de cultura de massa da época, o rádio, hoje ainda são presentes em telenovelas, atualmente o mais popular entretenimento no Brasil, que mesmo nos retratos contemporâneos perpetuam certos tabus.
A interpretação da peça também foi um desafio, mesmo os atores Rosane Santolin (Sônia Maria) e Anderson Barbarotti (Fernando) sendo alunos da terceira fase do curso de Artes Cênicas, o trabalho interpretativo no rádio pede outro enfoque. O impulso corporal tem que ser representado apenas na voz e mesmo se tratando de melodrama, é preciso moderação. Não há a pretensão de se reproduzir de forma idêntica a gravação original ou o formato da época. O que se faz é um trabalho experimental, brincar com as nuances do melodrama que permite um certo exagero, mas sempre na procura do equilíbrio, já que o próprio conteúdo do texto é exagerado.


Rosane Santolin, intérprete de Sônia Maria em “A carta que eu não escrevi”.

Há ainda a consciência de que o público que hoje ouvir a peça, não vai verter lágrimas, mas pode até soltar boas gargalhadas. O estímulo é outro, os atores fazem a leitura com um misto de curiosidade e bom humor; inclusive nas partes que seriam as mais lacrimejantes, foram as que tivemos mais dificuldade na gravação, pois os atores muitas vezes tinham ataques de riso.
Trabalhar com uma peça como essa não é um simples resgate histórico, um mero olhar para trás. Trata-se de descobrir novas possibilidades, de encarar o meio radiofônico como um espaço para inovações, para se fazer arte. O ator pode, então se conhecer melhor, ampliar suas possibilidades, pois ele não se esconde por não ter sua imagem em cena, mas revela a partir de sua voz o que pode ajudar a construir na imaginação de quem o ouve.

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