Programas infanto-juvenis, um dos elos perdidos do rádio

Publicado em: 02/02/2009

Lendo agora “Clube do Guri – a história de um dos maiores sucessos do rádio gaúcho das décadas de 50 e 60”, da radialista Marta Schmitt reencontro o fio da meada.

Os programas infanto-juvenis que faziam a alegria da garotada e balançavam o coração dos papais, mamães, avós, titios, amigos e desconhecidos tinham a força de um guindaste na programação das emissoras. Isso fazia a felicidade dos astros mirins que desabrochavam ao som de canções inesquecíveis, inebriava os ouvintes de casa e agradava anunciantes patrocinadores.

O exemplo da Rádio Farroupilha de Porto Alegre é histórico e merece o destaque que está tendo com o belo trabalho da pesquisadora Marta Schmitt, mas não é o único.  Nas principais emissoras do Brasil o fenômeno se repetia e todos ganhavam porque esse tipo de programa carregava em si um dos mais fortes elos do veículo rádio com os seus ouvintes e anunciantes. Como numa simbiose múltipla, ali estavam calouros, animadores, locutores, radioatrizes e radioatores, maestros, instrumentistas, cantores e orquestras.

Para participar do espetáculo, como artista ou platéia, muito garotinho e muita garotinha teve que melhorar suas notas na escola, comportar-se à mesa, cuidar da roupa nova, selecionar suas brincadeiras e até mesmo mudar alguns hábitos alimentares. Sem contar os que encontravam ali o seu caminho numa carreira artística como é símbolo inolvidável a extraordinária Elis Regina, que para estar onde gostava fazia inclusive o papel de secretária do programa.

Os valores resultantes de um programa de auditório, ao vivo como o Clube do Guri, tiveram “um papel preponderante na formação musical de crianças e jovens que dele participaram, propiciando a profissionalização de muitos integrantes”, diz a autora e acrescenta: “ao mesmo tempo em que o programa proporciona aos participantes mostrarem seus conhecimentos e vivências musicais, também estimulava que buscassem novas canções, propiciando novos aprendizados, como a seleção de músicas, aprendizagem de novas canções, trabalho da expressividade, posicionamento em palco, uso de microfone e canto em grupos”.

O rádio – os que o exploram, os que nele trabalham e os anunciantes que os sustentam – o rádio, repito, perdeu este entre os muitos elos exclusivos e inequívocos que fazem do rádio um dos canais de maior índice de identificação com o seu público ouvinte. O rádio homogeneizado, superficial, medíocre, artificial e de conteúdo de discutível proveito que em grande parte estamos vendo está muito longe de suas raízes e, como tal, vai pagar por isso.

A alegada decadência do rádio como meio de comunicação social tem em si a sua própria causa e ao mesmo tempo, as suas chances de voltar a brilhar, porque tem potencial pra isso.

Não se trata de velhice, nem de perda de audiência para mídias mais abrangentes, como se acusa injustamente a televisão. O rádio – seus investidores, profissionais de comunicação e anunciantes – estes sim têm muito a ver com a ridícula e penosa situação sustentada por empresas que em favor do lucro imediato, são capazes de entregar a alma ao diabo nas sombras da primeira esquina.

Clube Mirim, auditório da Rádio Diário da Manhã, Florianópolis, 1958

Clube Mirim, auditório da Rádio Diário da Manhã, Florianópolis, 1958

11 respostas
  1. Vera Lúcia Correia da Silva says:

    Caro Antunes,
    aqui em Sampa tinham emissoras(eram poucas) que promoviam programas infantis na minha época. Que saudade! Eu adorava ir. Também já começavam os programas de auditório na TV, que também era novidade.
    Comentei com o Jair que tem anunciante que nos liga ou manda e-mail perguntando se conhecemos ou temos informação de alguma emissora nesse Brasil se ainda fazem programas voltados para a garotada. Não tenho conhecimento se existe, mas acredito que não mais. Tai um filão que as emissoras deveriam voltar a explorar.
    Abraços,
    Vera Lúcia

  2. Carlos A says:

    Antunes, lá pelos Anos Sessenta, em Santa Maria/RS, um tio-avô meu, tinha um potente rádio a válvulas Phillips (com Olho Mágico), e uma das emissoras prediletas dele, era a Rádio Jornal da Manhã, de Floripa, que ele sintonizava nos 31 metros! Foi tão vívida a imagem dele com a rádio, que quando cheguei em Florianópolis, fiz uma busca pelo dial, procurando sintonizar a Jornal da Manhã!

  3. J.Pimentel says:

    Não se trata de saudosismo. Antes fosse. Infelizmente é uma triste constatação. O rádio ficou superficial, pasteurizado, sem criatividade. Os esforços de algumas emissoras se resumem ao humorismo, nem sempre criativo, quase sempre apelativo e o baixo custo é a linguagem empresarial de hoje. Lembro-me que há alguns anos tentei criar uma rádio voltada para o público infanto-juvenil. Elaborei sua programação, sua estratégia de comunicação, seus possiveis atores, apresentei às agências de propaganda, mas não consegui um empresário de comunicação para investir na idéia.Aqui na Bahia tinha um programa, A HORA DA CRIANÇA que fez grande sucesso ao ponto de permitir a criação de um dos maiores e melhores orfanatos do nordeste, que leva o nome do programa. Infelizmente também acabou, a rádio foi vendida para religiosos e tudo o que se tem é proselitismo da pior qualidade. Parabéns por seu artigo.

  4. josé predebon says:

    Pois eu sugiro a ti que faças um zoom out na análise, e certamente chegarás à conclusão que eu cheguei (ainda que provisória, como toda conclusão sábia) que a decadência não é bem do rádio, mas da cultura em geral, incluindo nisso a educação, que incluia o rádio d’antanho.
    E vamos então desanimar e chorar? Penso que a recuperação possível está dentro do que cada um de nós pode fazer dentro do seu âmbito, praticando a arte do possível. Estaremos talvez (é assim que me sinto) jogando copos de água no incêndio da floresta. Mas, mesmo dentro dessa metáfora, estaremos talvez atrasando a ação do fogo, para que, quando vier a chuva redentora, ainda houver mais floresta não queimada. Virá a chuva? Se nós continuarmos ativos, tu no portal, eu cá em minhas aulas e palestras, acho que a probabilidade de uma reversão será maior. Entonces, como diria Condolessa, wood on machine, amigo!

  5. waldemar Garcia says:

    Fui Apresentador e criador do Parque Infantil na Tv Gaúcha de Porto Alegre, durante muito tempo desde da inauguração da mesma… Lançamos Os Brazas – Berenice Azambuja e tantos outros… que saudade daquele tempo… quando se fazia programa de auditório e beneficiava as escolas com a renda financeira do mesmo… tenho muita saudade…hoje milito no Rádio Guarapuavano – 32 anos nesta cidade linda do Paraná… Clube do Guri também foi um grande sucesso em Porto Alegre… assim como no Rio de Janeiro onde tive a felicidade de apresentá-lo na PRG-3 Rádio Tupi e na TV Tupi na Urca… uma produção do saudoso Samuel Rosenberg… de onde sairam Wanderléia, Sonia Delfino, Golden Boys, Sergio Murilo, Elizangela (atriz da TV Globo) e tantos outros… que falta nos faz… Waldemar Garcia.

  6. Wilson Leonardo Junior says:

    Estou feliz de poder reviver depois de 51 (cinquenta e um anos), a minha passagem pelo Clube do Guri, na TV Tupi do Rio de Janeiro que era levado ao ar, todos os domingos as 12:oo hs, com a apresntação de Colid Filho e direção de Samuel Rosemberg. Hoje vejo alguns colegas daquela época quem fazem sucesso na área artística, mas não vou mencionar seus nomes, pois não me foi permitido, devido ao contato perdido pelos anos passados. Não tem problema não, fico satisfeito em saber que o programa não foi esquecido. Parabéns a todos voces, por garadarem uma época tão feliz de minha vida. Obrigado.

  7. beatriz says:

    Gostaria de saber informações sobre o apresentador Waldemar Garcia onde encontralo para uma entrevista ( trabalho de faculdade ).
    Agradeço a colaboração.
    Beatriz

  8. Hugo Rodrigo Garcia Carvalho says:

    Sou filho do apresentador Waldemar Garcia, podem enviar o meu email a Sra. Beatriz que farei o contato com o mesmo. Ate Logo, obrigado!

  9. edison strassberg cortez says:

    quando guri curtia todos os domingos parque infatil da tv gaucha.poi morava no lado da tv.quero saber mais de valdemar garcia.

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