Próximos e distantes

Publicado em: 27/02/2020

Muitas pessoas conhecem a ilustração do: Bom samaritano, contada por Jesus e registrada nos evangelhos. Ao final do relato Cristo faz uma pergunta importante e reveladora: “Qual desses três homens você acha que mostrou ser o próximo do homem que caiu nas mãos de assaltantes?” Lucas 10: 36.

Uma reflexão e pesquisa nos mostram o que significa nesse contexto a palavra – próximo. O leitor e eu, quem é o nosso próximo? A história costuma dar uma bela lição, mas quantos a aplicam no dia a dia; trânsito, fila em supermercados e coisas parecidas? E quanto aos nossos próximos mais próximos, no sentido de estar perto, vizinho, e mais próximo ainda; marido, esposa, filhos, pais, amigos? Na ilustração do Senhor, o samaritano havia sido ferido por bandidos, ferimentos físicos. Todos nós, sem exceção, temos ferimentos na alma. Entenda-se na alma como ferimentos psicológicos, recentes e lá do passado. Alguns cicatrizaram, outros não.

Os ferimentos na alma vêm de golpes duros, não das chamadas armas de fogo ou as armas brancas. Estas últimas podem deixar marcas além das cicatrizes na carne; pior, dores emocionais. Mas as armas que matam, ferem e cortam a carne podem não ser as piores. Há armas que causam ferimentos terríveis: Palavras duras, ditas propositalmente ou não. Ver a dor de quem amamos. Mãos que tocam com falso carinho – o abuso sexual. Vítimas desses ferimentos são sufocadas por dolorosas lembranças e uma cicatriz que se faz “ver” todos os dias. Esse “ver” quer dizer lembrar sem querer recordar o que nunca deveria ter acontecido, mas aconteceu. Por que próximos e distantes?

Médicos, enfermeiros, psiquiatras e psicólogos são de grande ajuda no tratamento de feridas físicas e emocionais. Há além deles pessoas que estão tão perto de nós que podem ser chamadas de próximas; filhos, pais, esposa, marido, avós, amigos; podem ser próximos e distantes ao mesmo tempo. Tão perto que dividem o mesmo teto, quarto, banheiro, louças, cama, corpos. Próximos em grandes e mínimas intimidades, distantes como capitais de países, como países de outros continentes. É como olhar a lua, seu brilho, sua beleza; parece que é possível tocá-la, mas é apenas impressão, à distância é grande demais, assim são muitos relacionamentos. Duas coisas parecem fazer a diferença: empatia (qualidade ou capacidade de se colocar no lugar do outro, do próximo. Há quem diga: sentir a dor ou alegria do outro), e escutar (mais do que ouvir, escutar é prestar atenção; eis o desafio, a habilidade que poucos têm). Empatia e escutar, fiquemos com o escutar. Envolve mais que o nosso precioso tempo, mais do que os nossos próprios interesses. Envolve dar valor ao próximo. Enquanto escutamos precisamos nos deixar de lado, manter fixa nossa atenção no que o outro diz, aí entra a empatia, nos colocamos ou pelo menos tentamos nos colocar no lugar do outro.

Um menino pergunta ao pai: “Pai, qual é a arte da verdadeira comunicação?”. O pai responde: “Escute, meu filho”. O garoto pensando que o pai não lhe dera atenção volta a perguntar: “Pai, qual é a arte da verdadeira comunicação?”. Seu pai diz: “Já respondi sua pergunta, filho. A arte da comunicação é escutar”. Li essa história, mais ou menos nessas palavras em um número da revista Despertai, isso faz uns 25 anos. Convenhamos, não é apenas a empatia e o escutar, muitas pessoas não conseguem se abrir, expressar o que sentem e o porquê sentem dores e mágoas. É necessário falar, é essencial escutar. Dividir quarto, cama, corpos, casa, sobrenomes parece nos fazer próximos, mas à distância pode ser grande e durar uma vida toda. Aliás, a resposta à pergunta do Mestre sobre quem mostrou ser o próximo na ilustração do bom samaritano foi: “Aquele que agiu misericordiosamente…” O senhor lhe disse: “Vá e faça você o mesmo”.

Enfim, quem é o meu próximo, o seu próximo? Qual a real distância entre nós e eles? Se não há distância entre nós e quem amamos vivemos uma benção. Diferente da lua é possível tocar fisicamente quem está próximo, o que não garante que não esteja distante. Tocar alguém com amor e ternura, com empatia e escutar pode não curar, mas une, alivia e aproxima de verdade quem está perto os tornando acima de tudo próximos.

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