Qual o futuro da Rádio Guaíba?

Publicado em: 18/04/2008

Desde o carnaval de 2007, quando circulou a informação de que a Record, de São Paulo, estava assumindo o comando do jornal Correio do Povo, da TV Guaíba e das rádios Guaíba AM e FM, o clima no número 219 da rua Caldas Júnior oscilou da euforia ao desânimo diversas vezes.

 Já, de cara, havia um contraste total em relação ao morro Santa Teresa, onde obras e mais obras marcaram a transformação da TV 2 Guaíba, de programas locados e equipamentos algo ultrapassados, na moderna TV Record, de Porto Alegre.

Apesar de certa desconfiança com a alteração no nome da estação fundada ainda nos tempos de Breno Caldas, a presença do competente jornalista gaúcho Marcos Martinelli indicava ao mercado um novo momento na televisão do Rio Grande do Sul.

Esperava-se algo na tradição de qualidade da dominante RBS TV ou de experiências isoladas, mas importantes, como o Câmera 10 e o Portovisão, da TV Difusora, nos anos 1970; o Jornal Meridional, na TV Pampa, em meados da década seguinte; ou do recente SBT Repórter, do canal 5 de Sílvio Santos na capital gaúcha. Ao longo do ano passado, houve a promessa de que, em 2008, seria a vez de mexer nas rádios e no jornal. A presença de Martinelli servia de balizador: um grande profissional, com respaldo, inclusive, junto aos sindicatos de jornalistas e radialistas, tocava o empreendimento do bispo Edir Macedo em TV no estado. Os fatos das últimas semanas abalaram, totalmente, esta convicção, fazendo com que os ouvintes das rádios Guaíba AM e FM começassem a estranhar as atitudes da Record à frente das emissoras, duas das mais tradicionais do Sul do país.

Esse processo ganha força a partir da demissão de parte dos correspondentes da Guaíba em diversas cidades gaúchas. Uma herança da experiência vitoriosa da Central do Interior da Caldas Júnior, a presença destes profissionais ao microfone, em especial durante o Jornal da Tarde, era uma forma, para milhares de ouvinte radicados em Porto Alegre , de manter um contato com sua terra natal. E, saindo da capital, Rio Grande adentro, demonstrava o valor e o apreço da emissora pelo seu público, por suas raízes verdadeiramente locais. O guaibeiro, espécie de gentílico da nação formada pelos ouvintes da mais tradicional emissora de jornalismo do estado, começava, assim, talvez e infelizmente, a deixar de existir. Um deles registraria sua indignação, no dia 25 de fevereiro, ao enviar uma mensagem para o Gaúcha Hoje, atração de início de manhã da principal concorrente da Guaíba:

– Agora, sou gaucheiro. Sou ouvinte a partir de agora somente da Gaúcha, que é aqui do Rio Grande do Sul, legitimamente. Sou 100% RBS.

A afirmação, quase anônima, mas com certeza não isolada, é um resultado contrário a tudo que a Record buscou construir desde a sua chegada ao estado. Nas primeiras transmissões da TV Record, usando o canal 2, uma longa reportagem mapeava usos e costumes do Rio Grande do Sul e apresentava o estado para o resto do país, uma forma inteligente de demonstrar o que o grupo do bispo Macedo pretendia representar para o estado. É claro que lá no morro estava Marcos Martinelli.

No início de fevereiro, no entanto, começaram os problemas, antecipando o que ocorreria, semanas depois, na rádio, com a saída dos correspondentes do interior. A direção da Record decidira aumentar o grau de sensacionalismo do popularesco, mas ainda contido, Balanço Geral, atração do horário de almoço na TV. Apostava no crescimento de audiência, com a exploração das mazelas sociais, a exemplo do que já conseguira em outros estados. Em meio às alterações de conteúdo, totalmente avessas ao jeito gaúcho de fazer jornalismo e à tradição de credibilidade da velha Caldas Júnior, é anunciado que Martinelli está deixando o comando do telejornalismo do canal 2, sendo substituído por um executivo vindo do centro do país.

Tudo muito estranho para nós, gaúchos, acostumados a exportar profissionais com técnica, conteúdo e, em especial, credibilidade. Olha lá o Caco Barcelos, o Roberto Kovalick, o Marcos Lozekan…, mas eles trabalham na Globo e aí não conta. E dá-lhe conteúdo popularesco. Será que ninguém lá para os lados do bispo se deu conta da diferença que mesmo neste aspecto há por estes lados? Olha só o Diário Gaúcho. É popular sem ser popularesco. Olha a Farroupilha. O policialesco, nos 680 kHz, dá lugar ao assistencialismo. São nossas marcas. Ah, mas aí não conta também porque é da RBS.

O pior é que conta, sim. Algum tresloucado, ao ver os índices do Ibope de fevereiro, chegou, sem o mínimo planejamento, a pensar:

– Se a Farroupilha tem 52% de audiência em AM, a saída é transformar a Guaíba na nova Farroupilha!

Genial idéia, se não desconsiderasse com ela a tradição da Guaíba e de seu público. Genial idéia, caso se observasse que o percentual da Farroupilha crescia, porque, ao manter o número de ouvintes, enquanto o segmento de radiojornalismo em AM perdia público, uma regra matemática levava a uma porcentagem, por óbvio, maior. Houve infrutíferas tentativas, desmentidas em público, mas confirmadas em corredores de emissoras, para contratar o campeão de audiência da Farroupilha, Gugu Streit. Genial se fosse uma convicção amparada em reflexão apurada e planejamento preciso. A confirmar o improviso desta atitude, em paralelo – atitude louvável, mas curiosa se há setores da Record que optam por uma programação mais popular –, os novos gestores consultaram os funcionários da rádio, pedindo sugestões no campo do jornalismo. A partir daí, mudanças positivas foram anunciadas no finalzinho de março. Ganhavam roupagem mais moderna atrações como o Agora, de Joabel Pereira, que passava a dividir o microfone com Lizemara Prates, e retornavam programas como o excelente Reportagem Especial, de Rodrigo Koch e equipe. No entanto, na quarta-feira, dia 9 de abril, poucos dias depois de iniciada a nova fase, o mercado e os ouvintes surpreendiam-se. A Record demitia, sem maiores explicações, o gerente de Jornalismo da Guaíba, Flávio Portela, e, no ar, o apresentador Joabel Pereira anunciava que estava deixando a emissora. No mesmo dia, começava a correr forte boato a respeito da venda do prédio histórico da Caldas Júnior, sede das rádios e do jornal.

Cabe, então, perguntar, título desta coluna: Qual o futuro da Rádio Guaíba?

Primeiro, há que salientar: a Guaíba é um patrimônio do rádio do Rio Grande do Sul e do Brasil. Isto não significa que seja imune a mudanças. O que interessa, neste momento, é especular que objetivos tem a Record e que mudanças são possíveis em um quadro de domínio da Gaúcha em radiojornalismo e de decadência do AM.

Se o interesse do grupo do bispo Macedo é marcar posição neste segmento, deve investir, e muito. Uma estratégia de curto prazo aponta para a contratação de profissionais de renome nas outras emissoras, o que teria um custo talvez altíssimo. Uma estratégia de longo prazo repete o que o Grupo Bandeirantes há anos vem fazendo no estado, valorizando novos profissionais e, aos poucos, ampliando seu espaço. Outra alternativa seria mesclar o jornalismo da Guaíba AM com a música da FM, invadindo espaço deixado livre pela RBS, o do jornalismo em freqüência modulada, mas onde a BandNews começa a se consolidar, apostando nos receptores de rádio embutidos em celulares e aparelhos de MP3 player. Nesta hipótese, a estação dos 720 kHz acabaria, aos poucos, dando lugar a uma Rádio Record AM, que abrigaria profissionais oriundos, é bem provável, da Farroupilha. Seriam lances ousados e muito dispendiosos, mas capazes de abalar a hegemonia da RBS que, no entanto, não é a único protagonista desta história. Se as estações da família Sirotsky estão acima, abaixo, correndo por fora, aparecem as do Grupo Bandeirantes e mesmo as da Rede Pampa. Esta última, por sinal, com sua Pampa AM, tem incomodado a própria Guaíba, por vezes, registrando uma audiência muito significativa, por exemplo, nos horários de Beatriz Fagundes, justamente ela, que transita por um jornalismo de cunho mais popular. Na emissora de Otávio Gadret, ainda estão nomes tradicionais do rádio do Rio Grande do Sul como Antônio Augusto, Jayme Copstein e Flávio Alcaraz Gomes.

O certo de tudo isto é que, se mantida a linha atual de incertezas, a Guaíba deixa passar a grande oportunidade de mudança, a expectativa toda gerada pela chegada dos investimentos da Record no estado. E o que era euforia será mesmo descrença. Aí, meu amigo, pouco poderá ser feito, pelo menos sem gastar muito mais dinheiro.

 


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7 respostas
  1. virgilio nascimento says:

    infelizmente, apos a chegada da record, tem se notado, que a radio guaiba e a tv2 perderam sua caracteristas, pois jamais pensei ver e ouvir jornalismo sençassonalista, na nossa querida radio guaiba e na noss tv2 guaiba. o proprio rogeiro mendelski vem perdendo seus ouvinte apartir da 08,00hs com a presença do juremir, que tudo entende e nada sabe, infelizmente estamos assistindo o fim de todos os orgão da caldas junior.

  2. virgilio nascimento says:

    se não acabar com este sensassionalismo, que gaucho não gosta, isto só é aceito la no centro do pais, onde o reporter é obrigado a fazer seu entrevistado chorar, senão sua reportagem nem vai pro ar (radio/tv) salvem a nossa guaiba e tv2guaiba

  3. Roberto says:

    Eu era ouvinte da guaíba FM há 20 anos. Depois que o grupo Record a transformou na “nova guaíba FM” descaracterizou-a completamente. Com uma programação de futebol, notícias alarmantes e música Americana (coisa encontrada em muitas outras rádios)fica impossível ser seu ouvinte para quem como eu gostava dos clássicos e da música ambiental que tornava a antiga rádio guaíba única no RS.
    Realmente foi uma grande perda para um grande público ouvinte que apreciava a boa música da guaíba FM

  4. Sílvia Graça Toledo says:

    Meu Deus, como puderam acabar com aquela programação maravilhosa da Guaíba FM! Dementes da Igreja Universal do Reino do Dêmonio, isso sim!

  5. Vinicio Majerkowski says:

    Eu vi a Radio a Guaiba nascer, era uma rádio eclética e inovadora, suas musicas tinham um extraordinario bom gosto,eu tambem vi a TV Guaiba nascer, fui um dos primeiros a captar o sinal teste quando entrou no ar,mesmo durante aquele periodo de provações que a empresa passou eu nunca deixei ser ouvinte e telespectador.
    Ai chegaram os atuais concessionários e acabaram com minha alegria, trocaram o nome da TV que era de origem indigina por este nome horroroso que nem brasileiro é,acabaram com uma tradição de jornalismo neutro, era uma verdadeira escola,não satisfetos ainda acabaram com a FM, e ainda dizem que isto é “evolução”.

  6. Luís Carlos Ferreira de Lima says:

    Fui ouvinte da rádio guaiba (nem merece o respeito com letras maiúsculas)desde 1975, quando eu tinha apenas 9 anos de idade e morava no interior do Paraná. Foi quando aprendi a escutar os jogos do meu Internacional e me apaixonei por esta instituição. Mas agora, o casamento acabou, a paixão terminou, principalmente pela saída de Aroldo de Souza, o maior narrador esportivo do RS, dos quadros desta rádio. Não dá prá suportar estes outros profissionais, como Luís Carlos (chefe de esportes), Ernani Campelo (que mais parece com repórter policial). Nunca mais ouço a rádio Guaíba (agora com respeito)… vou escutar meu Inter na Rádio Gaúcha, na Band, mas Guaíba nunca mais…

  7. joel souza says:

    Que saudade da decada de 70 quando eu começava o dia ouvindo o programa
    A musica da Guaiba na faixa dos 25 metros, no interior de Mato Grosso.
    Depois vinha o correspondente Renner. Resumindo eu ficava o tempo todo
    com o meu Radio ABC ligado na emissora que tocava a verdadeira musica brasileira
    e a gauchesca também. ( Rio Grande do Sul,o gaucho quer cantar….)
    Ah! ja tinha me esquecido do programa Pergunte a Guaiba.
    Aquela epoca a Radio Guaiba era uma verdadeira enciclopedia, e fonte
    de alegria para os ouvintes.
    Venho aqui expressar minha triteza por não ouvir mais as vozes de Sergio Jockmann
    Adroaldo Streck e outros,e suavidde da programação
    Vai ficar na saudade!
    Joel Souza

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