Quando a sociedade idealizada vira inferno

Publicado em: 21/03/2012

Quem nunca se defrontou com um dilema? Quem não esteve como define o Aurélio, diante de situação embaraçosa com duas saídas difíceis ou penosas? Creio que boa parte de quem transitou a adolescência pelos trepidantes anos de 1960, com ditadura esmagando aqui e o mundo parecendo desmoronar lá ao longe, já se viu, depois, na fase mais adulta, em algum instante, diante de encruzilhadas angustiantes. Abordo a questão por que ao dizer, dias desses que Paulo Freire fora, para mim, mais catequista do que educador a casa tremeu. Pois é, quem sou eu para dizer uma coisa dessas? Talvez só um sobrevivente? Não sei!

Um dia um amigo (não por acaso fazendo coro comigo) confidenciou que não estava preparado para viver fora da sociedade que, ainda imberbe, idealizara e repetia isso como mantra sempre que qualquer problema grave o afligia na vida cotidiana. Entretanto, na impossibilidade de fugir e na obrigação de enfrentar a realidade quase se desfigurava ao ter que admitir que jamais suportaria viver no que se transformara a sociedade que idealizara e pela qual tinha dado a melhor parte da sua juventude. Ele não suportaria assim como ninguém, como se comprovou por esse mundo afora. A utopia transformou-se em tragédia que os renitentes não querem admitir.

Esse dilema (que poderia ser apenas outro no complexo processo de descoberta sobre qual é nossa missão na face da terra) não nascera como decorrência do desenrolar de uma ação educacional cotidiana, mas brotara, sim, de uma atividade de catequese a que muitos foram submetidos naquela década que virou o mundo de pernas para o ar para deixa-lo, na essência, do mesmo jeito.

O amigo descobrira, não tarde demais, que sonho, quando muito grande pode virar pesadelo. O modelo de sociedade odiado pela turma que invadiu as ruas naqueles decantados anos de 1960 acabou se mostrando muito melhor do que aquele idealizado queimando bandeiras do Tio Sam. A queda do Muro (por ironia, com avassaladora ação do Papa João Paulo II) revelou toda a tragédia do modelo gestado e jogou milhares na orfandade. Por isso, de repente muitos, como meu amigo, perguntavam se os laços com o passado eram sadios. E como desfazer os nós? Sem travas no olho, a contabilidade pretérita era terrível e para salvar a sanidade era necessário admitir que a utopia só produzira terror, sangue, assassinatos em massa, dor sem fim.

É inegável que sofremos em demasia quando conhecimento, lucidez e nesgas de sabedoria só chegam depois dos fatos consumados. E esse tem sido o destino dos países periféricos, de terceiro mundo, do ponto de vista de uma massa critica que precisa estar comprometida com os desafios do seu tempo. Foi o caso dessa turma relativamente aos efeitos da paixão juvenil: destruir o mundo velho para construir o mundo novo; matar o homem velho para fazer nascer o homem novo. Isso – parece que ninguém aprende com a história! – ainda vigora. O preço é salgado, torturante ao se descobrir só depois do estrago consolidado, que a ideia motriz das ações executadas no cotidiano contraditava as pretensões. Com dedicado idealismo de sempre meu amigo fazia (fazíamos!) um urubu imaginando estar edificando um colibri.

O fato inegável (não se pode culpar ninguém, cada um é responsável por seus atos, mesmo que ainda imberbe) é que com demasiada frequência, fruto principalmente da soberba, somos seduzidos, conduzidos inconscientemente, por ideais boçais postos em moda por intelectuais orgânicos com ânsia de poder e depois somos governados por mentes sagazes sem preocupações morais. Somos conduzidos por gente que a nossa cegueira, ou nossa covardia, ou nosso medo, ou nosso excessivo idealismo ou nossa ignorância impedem de questionar e que, no comando, exacerba a parte demente que compõe o exercício do poder. Há veneno maior? PS.: Qualquer semelhança com o Brasil de hoje seria mera coincidência!

Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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