Quando nosso Presidente nos desampara

Publicado em: 02/05/2006

Sei, já ouvi falar, e até já percebi passando por outros países da América do Sul, que o Brasil nem sempre é bem visto, ou visto com simpatia. Enquanto nós, aqui dentro do Brasil, discutimos ardorosamente uma desejável libertação do peso do colonialismo primeiro-mundista, fica difícil empatizar com nossos semelhantes se eles nos vêem como “predadores”. Isto sempre me dá uma sensação de desamparo.
Por Anna Verônica Mautner

Segunda-feira à noite, diante da TV, tive o desprazer de ouvir o Presidente da Bolívia nos enquadrando como e junto a aqueles que, segundo ele, exploram implacavelmente os recursos naturais, no caso de seu solo e subsolo. “Roda-viva” se deslocou para o Palácio do Governo Boliviano, onde inúmeros jornalistas, em roda, ladeavam Morales, o qual praticamente dava uma só uma resposta às muitas questões que lhe foram colocadas:
 – Os investidores estrangeiros devem obedecer à Constituição e à Legislação do país.
Algumas empresas brasileiras, segundo ele, não vêm obedecendo a contento. Assim sendo, só lhes restam dois caminhos – obedecer ou sair de lá.  Ele repetiu isso para praticamente todos os entrevistadores. Fui me sentindo estranha na minha pele. Identificada com o Brasil, diante das palavras de Morales, estranhei-me. Sou da geração e da tribo antiamericana, nacionalista. Sou herdeira do tempo do “o petróleo é nosso”, com muita honra. Foi muito desconfortável ouvir, por duas horas, alguém falar mal de mim para o mundo. Como reação,  percebi-me buscando indícios, sinais com os quais desqualificá-lo e banalizá-lo. Virei uma criança com vontade de dizer que era muito feio ele nos tratar deste jeito. E lá fui eu procurar defeito. Eu acreditava que o meu Presidente, logo em seguida, viria me explicar o que estava acontecendo. O que nós tínhamos feito de errado. Não que eu ache que o Brasil seja perfeito nas suas relações internacionais.
 
Sem gravata, de camisa amassada, sentado em cadeira de estilo, não sei se original ou cópia, de qualquer forma está entre o Barroco e o Rococó! Pois é, eta cadeirinha colonizada!
 
Sua linguagem era simples e direta, e seu repertório de argumentos bastante limitados, e por aí afora, fui caraminholando o possível para, levando-o menos a sério, sentir-me menos atacada.
A presença de uma pessoa como Evo Morales na constelação de estadistas surpreende. Até o nosso Presidente apresenta-se mais ocidentalizado. A ausência da liturgia do poder aposto ao local quase século XIX gera certa insegurança.  Poderíamos dizer que não é necessário mudar a decoração para mudar o discurso, mas esta reunião poderia ter sido feita em outro lugar. Nota-se o esforço em não dar mais importância a um do que a outro dos entrevistadores. A escolha do círculo, no qual todos eqüidistam do centro, já é a semente de uma nova liturgia.
Será que a sua camisa amassada, a ausência de gravata,  contrastando com a cadeira rococó pede que tipo de tratamento se dê a sua pessoa? “Você”, pela camisa, ou “Excelência”, pela cadeira?
Eis um mundo novo chegando. Se os movimentos da História continuarem como sempre foram, uma nova liturgia será sedimentada – respeitada para depois ser desrespeitada e trocada.
Confesso que ontem tomei um banho de futuro de um mundo que não viverei.  Fidel ainda usa seus safáris, apesar do avançado da idade. Entre nós, temos Lula, suas camisetas e seus bonés. Mao Tse Tung e suas camisas azuis junto com todo seu povo. Ben Gurion não punha gravata, fiel ao seu passado de pioneiro. Agora, Evo Morales, com sua camisa amassada e sua linguagem seca, despertou-me mais raiva do que solidariedade, apesar de que, pela programação da minha cabeça, eu deveria gostar dele, aliás, até segunda-feira, eu gostava. Não me alegra rejeitar o futuro, prefiro perscrutá-lo e conhecê-lo. Ontem à noite ele não me deu chance de simpatizar. 
E eu, que me atrelo ao sonho  de ver os donos da terra mandando na terra que herdaram de seus antepassados, fui me sentir estranha onde eu gostaria de me rejubilar.
Na manhã seguinte, corri aos jornais, claro que o meu Presidente estaria me defendendo, se não na manchete, pelo menos em algum canto da primeira página. Nada. Ninguém nos defendeu, a nós brasileiros, e nem nos explicou tim-tim por tim-tim o porquê de tudo isso. Dois dias depois, uma ou outra voz apareceu: questões ambientais, gasoduto, etc. Resta uma sensação de desamparo. 


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