Quem te viu, quem TV

Publicado em: 05/06/2012

Leila Cordeiro *

No dia 5 de junho de 1983, há exatamente 29 anos, estreava aquela que seria a primeira pedra no sapato da toda poderosa Rede Globo, a TV Manchete, fundada no Rio de Janeiro pelo empresário gráfico ucraniano, naturalizado brasileiro,  Adolpho Bloch.  A Manchete entrou no ar cheia de novidades. Para começar, o cenário de seu principal telejornal foi o primeiro a ter como fundo imagens de monitores com os profissionais da técnica trabalhando ao vivo. Além disso, o design futurista do ambiente , incomodou o visual  tradicional e monocromático dos telejornais da Globo que passou a olhar com olhos mais preocupados para a nova emissora que estava nascendo em berço de ouro.

Sua sede no Russel também foi motivo de comentários e de curiosidade. Afinal, ela ficava num ponto privilegiado do Rio. Na praia do Flamengo bem em frente a um dos principais cartões postais da cidade maravilhosa, o Pão de Açúcar. Todas as empresas Bloch já funcionavam no prédio e a TV passou a ter alguns andares dedicados às suas instalações.

Em 1984, um ano depois de sua estréia,  a Manchete teve uma importante vitória em seu objetivo de incomodar a supremacia da Globo. A emissora dos Bloch conseguiu a exclusividade da transmissão dos desfiles das escolas de samba no ano de inauguração do Sambódromo,  depois que a Globo desistiu por não aceitar as regras impostas pelo governo Leonel Brizola.

E a Manchete não parou mais. Foi destaque em novelas como Pantanal e fez a diferença botando uma programação diferenciada  no ar, de musicais a noticiários, programas esportivos,  entrevistas,  debates e até humorísticos. Tudo com acabamento esmerado e conteúdo de qualidade. Seus funcionários eram de uma dedicação memorável. Vestiam a camisa da Manchete com orgulho e garra de estarem enfrentando, e incomodando,  o Golias do Jardim Botânico.

Mas o tempo passou, vieram dificuldades financeiras e administrativas e a emissora dos Bloch acabou fechando suas portas no dia 5 de maio de 1999 para tristeza tanto dos telespectadores quanto de quem trabalhava lá. Muitos ficaram sem receber e foram à justiça reclamar seus direitos sem sucesso.

Em novembro do mesmo ano de  1999, os empresários Amilcare Dalevo e seu sócio Marcelo de Carvalho assumiram a concessão da emissora do Russel, levando a sede para São Paulo,  deixando os funcionários da ex-Manchete no Rio a ver navios. Os novos donos alegam que nunca assumiram o compromisso de bancar o passivo trabalhista da emissora.

E o que era Manchete virou Rede TV. Depois de muitas promessas, próprias de quem está iniciando algum projeto, a Rede TV não aconteceu. A emissora investiu numa sede com tecnologia de ponta, tornando-se uma das mais modernas do país. Seu conteúdo, entretanto, só conseguia alguns pontos de audiência com uma programação de baixo nível. Ninguém é capaz de se lembrar de algum programa de qualidade na Rede TV. Pra se ter uma ideia, seu programa de maior audiência e faturamento era o Pânico. Era, porque agora o programa se transferiu para a Bandeirantes. Inventou um tal de Saturday Live, mas tudo indica que não vai decolar, segundo análise da mídia especializada.

Na busca pela audiência a qualquer preço, a Rede TV não faz por menos, apela para o baixo nível, mesmo sabendo que as experiências anteriores não deram certo. Abriu espaço para um terror de audiência, um tal de “Sexo a Três”. Pode alguma emissora séria ter um programa com esse nome?

O que vai acontecer com a Rede TV ninguém sabe.   Mas é preciso que o público saiba qual o critério de concessão de canais de televisão.  Tem o governo  poderes para cobrar qualidade de programação das emissoras, com punição que pode ir até a cassação do canal?  Pelo visto, se existe alguma cláusula nesse sentido, ela é ignorada pelas autoridades.

É uma pena que, ao olhar para trás e lembrar do que foi a Manchete, o público e  todos aqueles que nela trabalharam só tenham a lamentar o triste destino do que foi um grande projeto de televisão. (Direto da Redação)

* Começou como repórter na TV Aratu, em Salvador. Trabalhou depois nas TVs Globo, Manchete, SBT e CBS Telenotícias Brasil como repórter e âncora. É também artista plástica e tem dois livros de poesias publicados: “Pedaços de mim” e “De mala e vida na mão”, ambos pela Editora Record. É repórter free-lancer e sócia de uma produtora de vídeos institucionais, junto com Eliakim Araujo, em Pembroke Pines, na Flórida.

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