Quietos e falastrões

Publicado em: 28/03/2016

Quem me conhece sabe que sou um sujeito devagar-quase-parando, lento de movimentos e raciocínio e, portanto, um repórter meia boca.

entrevistaPorém, em 38 anos de carreira, também entrevistei gente assim, que custa a dizer um ai, que economiza nas palavras por temperamento e que simplesmente “não rende”, como se diz no jargão jornalístico. Há ainda os que falam pouco e dizem menos ainda, e aquelas fontes que frustram todas as expectativas – se espera delas uma revelação bombástica e o que se ouve é um traque, nada mais.

Um entrevistado que me deu trabalho foi Luis Fernando Verissimo. Conhecido por responder em monossílabos, foi difícil tirar alguma coisa dele – no que fui salvo pelo amigo Flávio José Cardozo, colega de seu pai Erico nos tempos da editora Globo, em Porto Alegre. Para piorar, eu era um foca, outra expressão do meio que designa alguém novato, estreante na profissão. Estava debutando em “O Estado”, a escola de tanta gente, mas era um debutante travado, com a timidez típica dos iniciantes.

Por outro lado, houve os falastrões, como sempre foi Alceu Valença. Ele se esbaldava na cama do quarto de hotel e deitava a falar de sua música, de suas inspirações, da vida de artista. Um pouco menos expansivo, também Belchior era de bom papo, com um timbre que sempre remetia a “Como nossos pais”, canção deliciosa na sua voz – e mais ainda na de Elis Regina, que nunca tive a oportunidade de assistir ou entrevistar.

Glória Menezes foi generosa, ainda que recatada, e desceu sozinha, deixando Tarcísio Meira no conforto do quarto de hotel. Gilberto Gil, Fagner, Baden Powell – estes sempre deram para o gasto. Em início de carreira, Fátima Guedes foi de uma grande simpatia, ao passo que Zé Geraldo discorreu gravemente sobre as motivações políticas de sua música. Emílio Santiago tinha amores por Floripa e esbanjou gentileza e educação como poucos.

Entrevistar Costinha numa mesa da cantina de “O Estado” foi um prazer, porque ele sempre respondia as perguntas com blagues engraçadíssimos – e em cinco minutos já havia uma multidão ao redor rindo de seus trejeitos. O mesmo valeu para Ary Toledo, despachado como ele só.

Vera Fischer e Perry Salles, Odilon Wagner e Otávio Augusto (“Pô, Romeu!”), Maria Ceiça (que linda!) e Marília Pêra, cada qual a seu jeito, foram pautas agradáveis. Moacyr Scliar, um gentleman, e José Saramago, um ídolo (apesar do direito a apenas uma pergunta), proporcionaram momentos especiais, talvez compensadores para além da conta de um repórter devagar-quase-parando.

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *