Rádio

Publicado em: 05/04/2008

Fora solicitado por uma rádio a conceder entrevista. Anuiu. À hora combinada, quis comparecer. Distraidamente, marcou o endereço. Na hora de ir, não o encontrava. Fazia outras coisas concomitantemente no instante em que o anotara. Quando quis, não soube onde.
Por Tito Damazo

 Todavia não se perturbou. Tampouco se preocupou em conseguir a localização. Os pontos de referência bastavam como baliza. Neles chegando, teria a rádio. Elas são características. Têm seus caracteres evidenciados. Uma antena peculiar. O prédio de arquitetura comercial. Quase sempre em assobradado. Suas insígnias, evidenciadas.
Assim, porém, não fora. Tinha ante si os dois pontos de referência. Não, todavia, a rádio. Trançara e retrançara as ruas. Longamente. Largamente. Morosamente. E nada dos índices indicadores da rádio. Nada. Casas, tão-somente. Casas de arquitetura classe médio-baixa imiscuídas por algumas de arquitetura classe média. Classe médio-alta. Então, assobradadas algumas. Mas nitidamente casas. Fachadas completamente residenciais. Antenas de toda ordem. Mas de televisão.
Tornou-se ansioso. Já incorria em atraso considerável. De um telefone público pediu que lhe localizassem nas páginas amarelas. Não constava. Ansiedade redobrada. O amigo jornalista socorreu-o. Todavia, o socorro disparou-lhe enorme surpresa. O número era o de uma casa classe médio-baixa comum. Tudo. O muro gradeado. Porta de entrada também de grade de ferro. Uma discreta área de frente. Antena, uma parabólica de televisão. Escudo nenhum. Sequer uma mínima placa. O receio somou-se à ansiedade. Talvez confundira o número. Ouvira errado algum algarismo. Descobriu discreto interruptor de campainha.
Disseram-lhe que sim. Era a rádio. Aguardavam-no desde a hora combinada. Acometeu-o a preocupação de ser indelicado, ofensivo (não entendia bem por que razão) descrevendo o real motivo do atraso. Atribuiu-o a decisões de última hora inadiáveis. E o azar de um pneu furado a meio caminho.
As amabilidades tudo dirimiram. Conduziram-no à cabine. Cujos dois compartimentos são separados e isolados por uma parede de vidro. O locutor numa repartição. O técnico-operador noutra.Vêem-se. Gesticulam-se. Mas não se ouvem um ao outro. Precisamente: o operador ouve, transformada em texto verbal, a fala do locutor. Ao qual de certo modo conduz.
Ele fora instado a aguardar alguns momentos na sala de operação. Na outra, o locutor finalizava um jornal. Depois o entrevistaria.
O rádio. Milagre de comunicação de sua infância e adolescência. Os homens ouvindo o noticiário. As intromissões nos programas do Repórter Esso com uma notícia em edição extraordinária. As mulheres ouvindo novela. “O direito de nascer” que parecia nunca chegar ao fim. Eles, meninos, esperando a hora do seriado “Jerônimo, o herói do sertão”. Bang-bang nacional que os empolgava. À noite assistia-se ao programa humorístico “Balança, mas não cai”. A poderosa Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Nela, todas as noites, Olímpia ouvia o programa de música sertaneja comandado por Edgar de Sousa. Sob o patrocínio do Instituto Universal Brasileiro. Certamente, se não o primeiro, dos mais antigos ensinos a distância. Beleu assistia aos jogos do Palmeiras. O fio terra à mão esquerda. A direita livre para o copo de cerveja Antártica (casco verde). A respiração no compasso do ritmo do locutor. Invariavelmente, Fiori Gigliotti ( Atenção, torcida brasileira. Vai começar o espetáculo. Apita o árbitro! Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo! Balão subindo, balão descendo…). Também na juventude o rádio estivera. Os ídolos do rock and roll. Da Jovem Guarda.
Todo esse arsenal radiofônico de tempos idos, enquanto aguardava a vez. Mas, tornado a si, deu-se com passar por aquele conjunto monstrengo de aparelhos. Aspectos de modernidade. Informatização. E então viu. O operador, os ouvidos presos nos sons. Atentos cumpridores do seu trabalho. A voz, a fala do outro. Mecânica e disciplinada rotina. Enquanto assim, simultaneamente, os olhos e a mão direita desaborrecem do trabalho num concentrado jogo de sinuca on line.
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