RÁDIO-COMUNICAÇÃO TRAZ IMPACTO POSITIVO NA VIDA DAS POPULAÇÕES AMAZÔNICAS A BAIXO CUSTO

Publicado em: 02/10/2006

“Políticas de comunicação são essenciais para a consolidação da democracia, a descentralização política e econômica e mudanças sociais associadas ao desenvolvimento humano”.
Por Renata Moraes

A afirmação acima está em uma tese de doutorado recém-concluída na London School of Economics and Political Science, em Londres, sobre a significância da informação e da comunicação em ambientes florestais.  O impacto dos meios de comunicação pode ser percebido mais nitidamente em regiões com infra-estrutura muito precária, como é o caso de milhares de comunidades tradicionais na região amazônica, foco da pesquisa.
O isolamento do que acontece à sua volta por falta de meios de informação, a impossibilidade de comunicar-se com o mundo exterior e a distância da rede de serviços públicos que se concentra nos centros urbanos é a realidade, por exemplo, da maioria das cem comunidades tradicionais da ilha de Gurupá, município paraense.  A pesquisadora Mônica Mazzer Barroso, autora do estudo de caso em Gurupá, analisou o impacto do sistema de radiotransmissores instalado na área pelo projeto Rádio Amazônia, em 2000, e a influência da rádio comunitária que abrange 60% do município na vida dos caboclos que vivem nesses povoados afastados.  O projeto, iniciativa da ONG Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, instalou radiotransmissores em 236 comunidades isoladas na Amazônia.
O impacto do rádio em Gurupá
A cidade conta com 17 radiotransmissores (14 nas comunidades rurais, 1 na cidade, 1 no barco de uma ONG e outro no escritório dessa ONG em Belém) e uma rádio comunitária implantada em 1997, que tem um programa (Alô, Alô Interior) em que as pessoas mandam mensagem para serem lidas no ar.  Barroso coletou para análise as conversas trocadas pelos radiotransmissores e as mensagens lidas no ar.  “Os temas principais dessa comunicação foram os relacionados à comercialização de produtos produzidos na região, questões de legalização de terras, avisos sobre as aulas, conversas de parentes que moram longe e mobilização política”.
O coordenador da ONG Federação das Organizações pelo Bem-Estar Social e Educação (FASE), Manuel Pantoja, conta que o atendimento de saúde e as relações comerciais foram os setores mais favorecidos pelo sistema de comunicação radiofônico.  “Quando surge alguma emergência médica a comunidade pode pedir atendimento imediato, sendo que antes precisavam ir de barco até a cidade.  E os produtores rurais podem fazer cotação de preço de seus produtos e negociações comerciais”.
Barroso afirma que as redes de rádio são o sistema de comunicação mais barato e simples, do ponto de vista da instalação e da manutenção, e deveriam ser adotados em políticas públicas para promover a integração dessas regiões isoladas.  No trabalho ela ainda aponta algumas falhas na legislação de rádios comunitárias, como a determinação de que tenham um raio de abrangência de no máximo um quilômetro: “Não considera as longas distâncias que fazem parte da realidade rural, em especial da Amazônia”.
Para Roberto Smeraldi, diretor da Ong Amigos da Terra – Amazônia Brasileira, o projeto Rádio Amazônia é um exemplo de infra-estrutura que realmente interessa à região.  “Faz parte de uma cadeia maior: redes de eletrificação rural, estradas vicinais, acesso à internet satelitar, à água potável, tratamento de esgoto. São investimentos difusos e de porte individual modesto, mas com efeitos sócio-econômicos multiplicadores e sinérgicos na produção, na saúde, na educação, na proteção ambiental”.
A tese Waves in the Forest: Radio Communication and Forest Livelihoods in Brazilian Amazonia está disponível para download no site (amazonia.org.br).


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