Radioatores são endeusados

Publicado em: 22/06/2005

Os atores e atrizes do rádio, que eram oriundos primeiramente do teatro, e após começaram a ser formados dentro do próprio veículo, foram endeusados possuindo uma legião de admiradores.
Por Ricardo Medeiros

Muitas das fãs esperavam o seu artista preferido na saída da emissora em busca de autógrafo ou de um simples aceno, gestos que provocavam cenas de delírio e de histerismo, semelhante às vividas pelos astros de Hollywood. A imprensa escrita, atenta a esse momento experimentado pelo rádio, criaram títulos especializados em divulgar tudo o que fosse relacionado aos radiotores. “Os fãs começaram a ter acesso a detalhes da vida e da carreira de cada um de seus artistas preferidos. Não bastava mais só ouvir o rádio; as fofocas, verídicas ou não, que jornais e revistas publicavam eram o must daqueles tempos”.  No rol de publicações específicas do mundo do rádio ou de publicações que incluíam em suas páginas seções que abordavam as ondas hertzianas estavam a Revista do Rádio, O Rádio, O Rádio Cantagalo, Rádio Horário Brasil, Rádio Ilustrado, Rádio Novidades, Rádio Phono Revista, Rádio Revista, Rádio Visão, Rádio Jornal, Rádio Cultura, Radiolar, Rádio Press, A Voz do Rádio, Radiolândia, Revista Carioca, O Tijucano, Syntonia, O Cruzeiro, Vida Moderna, Vamos Ler, Careta, O Malho, Revista da Semana, Scena Muda , Fonf-Fon e Cinearte.

A Revista do Rádio, a publicação mais famosa de todos os tempos, estampava em 1951 a seguinte manchete: Milionária Confessa seu Amor por Galã. O astro em questão era Paulo Gracindo. Na reportagem a millionária dizia que fazia oito anos que gostava do ator e que faria qualquer coisa para ficar ao lado dele. Suas preocupações na vida eram somente duas: a fortuna e Paulo Gracindo. Casar com o ator era o que ela mais queria e, se fosse necessário, deixaria para ele todos os seus bens. “Casar com ele seria a suprema ventura, seria a conquista do paraíso, seria o sétimo céu, seria a vida vivida com vontade, seria não sei que dizer, meu Deus”.  A senhora de 50 anos, que acompanhava sempre as novelas na qual Paulo Gracindo trabalhava, salienta na matéria da Revista do Rádio, que inclusive pensou em comprar a Rádio Nacional-coisa eu não seria possível, pois a emissora já tinha passado ao controle do governo federal- só para o ator administrar a estação.

Uma outra fã, desta vez do ator Saint Clair Lopes, cumpriu o prometido. Ao morrer deixou parte de sua fortuna para o ator da Rádio Nacional. O artista ganhou uma soma em dinheiro e um sítio no interior do Rio de Janeiro. Saint-Clair Lopes, nos anos 1940, esclarecia à imprensa que ele na verdade nunca manteve contato com a admiradora e que, portanto, nem sabia de sua existência. Ele teve que dar esta explicação à imprensa e à sua mulher, Judith da Silva Lopes.  Assim como a apaixonada de Paulo Gracindo, a senhora que idolatrava Saint-Clair Lopes gostava não do ator, mas de seus personagens que a faziam entrar no universo onírico em que tudo é permitido, até deixar uma herança para aquela voz que fazia parte de sua vida todos os dias da semana.

O fato é que a história radiofônica virou uma epidemia que dominou o país por mais de 30 anos. A interpretação de textos, embalada por músicas, efeitos e ruídos da contra-regragem, fizeram os ouvintes se emancipar de sua condição terrena, cotidiana e material, transportando-os para uma realidade de seres e entidades fantásticas que apenas a imaginação humana oferecia.

Famílias se reuniam ao redor do aparelho de rádio para cada um à sua maneira construir corpos, faces , olhares e gestos tendo como referência a sua novela preferida. Além disso, a máquina de fazer sonhos dava oportunidades artísticas a atores, atrizes, escritores e produtores de mostrarem o seu trabalho. Em paralelo, a novela se tornava um bom negócio, sobretudo para os patrocinadores- empresas que embalavam o dia-a-dia simples e sofrido da brasileira típica da época: a dona de casa. Aquela mulher que misturando ficção e realidade era uma dessas ouvintes que batia à porta da Rádio Nacional para falar com o personagem Doutor Mendonça, de Em Busca da Felicidade, atrás de um remédio para o fígado.


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