RADIOJORNALISMO DE VANGUARDA (FINAL)

Publicado em: 11/09/2006

Quando recebi a provocação do Sardá para escrever sobre o Zigelli (ver primeiro artigo da série), pensei que a tarefa seria fácil. E, em boa parte foi. Graças à bibliografia existente e o convívio diário que mantivemos durante 19 anos, pelos menos, dados era o que eu tinha com fartura. Encaixar esses dados no trabalho é que foi o grande desafio. Pra mim foi uma grande alegria parar – e às vezes meditar – relembrando aqueles tempos. Para você leitor e ouvinte, espero tenha sido uma oportunidade de entrar em contato com alguns valores que nortearam e continuam norteando nossas vidas.
Por Antunes Severo

“Só se é jornalista 24 horas por dia”, é um preceito que permeia não só o pensamento como a prática de Adolfo Zigelli. Veja, por exemplo, as recomendações que encerram estas “Regras de Redação”.
Quando tiver dúvidas sobre a responsabilidade que determinada notícia pode acarretar a emissora, consulte seu chefe imediato. Lembre-se que a emissora, como um todo, pode pagar por uma distração ou leviandade.
Cuidado com o telefone. Apenas se o informante for seu velho conhecido use a informação. Em caso contrário, investigue a notícia. É melhor não dar a notícia do que arriscar-se a dar uma notícia falsa.
E, logo em seguida, conclui arrematando: “Preserve as suas fontes de informação e seja leal para com elas”.
Unir a qualidade do conteúdo da informação à beleza e correção gramatical do texto, é recorrente em todo o trabalho de Adolfo Zigelli. Anote:
:: Classifique os seus informantes por assunto.
:: Evite os superlativos, os absolutos, os exageros.
:: Forme frases curtas, duas a três linhas no máximo.
Não use palavras difíceis, salvo expressões técnicas, médicas ou judiciárias, não esquecendo de explicar-lhes o significado, se possível.
No texto de uma notícia, todos são “senhores” ou “senhoras” e nada mais. Ninguém é Excelentíssimo ou ilustre, notável, sábio, virtuoso, fogoso, aplaudido, festejado, saudoso, conhecido etc.
Para fechar “As Regras de Redação”, Zigelli mostra dedicar especial cuidado para com a objetividade da informação. O item “tratamento” merece espaço exclusivo.
Os nomes próprios de pessoas são precedidos de senhor, doutor, senhora ou doutora. Excetuam-se as figuras históricas e aquelas que, a juízo da Direção, sejam suficientemente notórias para perder esse tratamento.
Quando o nome vem precedido de título honorífico, hierárquico ou de função, suprimir o “senhor”, “senhora”, “doutor” ou “doutora”:
“O embaixador Leitão da Cunha e não o senhor Embaixador Leitão da Cunha. O deputado José da Silva e não o Senhor Deputado José da Silva. O governador Luiz Borges e não o Senhor Governador Luiz Borges”.
E arrematando: só os médicos são “doutores” – quando em função de médico. Os demais profissionais devem ser tratados pela sua profissão: o engenheiro Pedro Gomes, o bacharel José João, o advogado Pedro Luiz. Use por extenso o nome usual da pessoa quando aparece pela primeira vez na matéria. Nas vezes subseqüentes pode empregar apenas a função ou o nome mais conhecido ou mais característico. Excetuam-se as figuras históricas e as de notoriedade reconhecida pela Direção.
Antes de fechar “As Regras” Zigelli reforça: Ao redigir uma notícia seja completamente impessoal. Não use jamais “nossa Capital”, “nosso Estado” ou “nossa Prefeitura”.
E logo em seguida vem o exemplo:
FLORIANÓPOLIS – (AZ) – Voltando de sua viagem ao Rio chegou hoje a esta capital o prefeito Batista Pereira. Declarou no aeroporto que fez o possível para trazer novas verbas à Prefeitura.
No capítulo O Vanguardista dos Manuais, Moacir Pereira ainda menciona que “outras seis páginas, datilografadas pelo próprio Adolfo Zigelli, com pequenas correções manuais recomendam técnicas sobre uso das maiúsculas, números, captação de notícia pelo sistema de rádio-escuta e, finalmente, um decálogo para os rádios repórteres”.
A carreira profissional de Adolfo Zigelli começa em Joaçaba em 1952 e terminou em 1975 depois de três bruscas mudanças: interrompeu a carreira de jornalista não engajado, assumiu a Secretaria de Imprensa do governo Antônio Carlos Konder Reis e morreu vítima de um acidente aéreo no dia 31 de agosto, quando se dirigia à Joaçaba para receber uma homenagem do Rotary Club local.
A decisão de aceitar um cargo no serviço público foi comunicada no comentário “Até Breve” que leu ao microfone da Rádio Diário da Manhã e reproduziu na coluna que até então mantinha no Jornal de Santa Catarina.


Fontes relacionadas:

:: Moacir Pereira. Adolfo Zigelli – jornalismo de vanguarda. Florianópolis: Insular, 2000.
:: Ricardo Medeiros e Lúcia Helena Vieira. História do Rádio em Santa Catarina. Florianópolis: Insular, 1999.
:: Antunes Severo e Ricardo Medeiros. Caros Ouvintes – os 60 anos do rádio em Florianópolis. Florianópolis: Insular, 2005.
:: Portal Caros Ouvintes


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