Radionovela: faz tempo que não rola mais!

Publicado em: 23/02/2009

A representação teatral foi intensamente transmitida nos anos de ouro do rádio, 1940/1950. Foi desativada com a chegada da TV e praticamente extinta no fim dos anos 1960.

Nacional (Rio de Janeiro), São Paulo (São Paulo), Clube Paranaense (Curitiba), Diário da Manhã (Florianópolis) e Gaúcha (Porto Alegre), só para citar algumas das principais emissoras do país, mantinham grandes elencos de radioatores e levavam diariamente ao ar muitas novelas.

Na programação dessas rádios, a dramaturgia ocupava maior espaço, seguindo-se os programas de auditório, os jornais falados e as transmissões esportivas. Com exceção da Rádio São Paulo, que especializou sua programação exclusivamente com novelas.

A Rádio Nacional, além de liderar a audiência na cidade do Rio de Janeiro, também conquistou a preferência dos ouvintes em muitas outras capitais e cidades brasileiras, devido aos seus potentes transmissores de ondas médias e ondas curtas e graças à excelente propagação das ondas hertzianas naqueles anos. As outras rádios citadas – menos a São Paulo – igualmente conseguiram o 1º lugar de audiência em suas cidades. 

A radionovela nasceu no Brasil no ano de 1941. O radioteatro surgiu antes, em 1935, na Rádio Clube Paranaense e, em 1937, na Rádio Clube de Pernambuco. A primeira, com um grupo amador dirigido por Corrêa Júnior, apresentou em um programa A Ceia dos Cardeais, original português de Julio Diniz. A segunda, apresentou Sinhazinha Moça, adaptação de Luiz Maranhão do romance Senhora de Engenho, do historiador pernambucano Mário Sette. Essa peça teve duração de uma semana, com capítulos diários.

A Nacional foi a primeira rádio brasileira a apresentar uma novela:
“Senhoras e senhoritas, o famoso creme dental Colgate apresenta o primeiro capítulo da empolgante novela de Leandro Blanco, em adaptação de Gilberto Martins, Em busca da felicidade.”

Publicação especial que promoveu o lançamento da novela

Publicação especial que promoveu o lançamento da novela

Esta novela teve longa duração, com duzentos e oitenta e quatro capítulos, três anos no ar. Principais intérpretes: Rodolfo Mayer, Lourdes Mayer, Zezé Fonseca, Floriano Faissal, Yara Sales, Saint Clair Lopes e Brandão Filho.

Quatro anos mais tarde, em 1945, a Rádio Nacional chegou a transmitir 13 novelas diariamente. O rádio, que até então tinha uma audiência maior no público masculino, em pouco tempo, com as novelas, passou a ter mais ouvintes do sexo feminino.

A segunda novela a ser apresentada no Brasil foi a argentina A Predestinada, pela Rádio São Paulo, isso ainda em 1941. Esta rádio chegou a ter nove novelas no ar diariamente.

Na Nacional, a novela de maior sucesso em todos os tempos foi O Direito de Nascer, de outro escritor cubano, Felix Caignet, apresentada no início da década de 1950. Foram muitos capítulos carregados de emoção em torno do romance proibido de Isabel Cristina e Albertinho Limonta que rolava sob os olhares bondosos de Mamãe Dolores.

Nos anos 1960, com o sucesso da televisão instalada Brasil afora, secou a fonte de audiência das radionovelas e de programas de auditório. O fim do radioteatro deveu-se também ao fato de que a TV, ao lançar novelas, contratou os nomes famosos da dramaturgia que atuavam no rádio e com isso as radionovelas de repente ficaram sem suas grandes estrelas, manobra que acelerou o desaparecimento das histórias em capítulos no rádio.

Transcrevo aqui parte de um artigo de Chico de Assis, dramaturgo, diretor, radialista e jornalista, sobre um ensaio de rádioteatro em FM que ocorreu em São Paulo, publicado no livro Rádio Sintonia do Futuro, da editora Paulinas:

ESTÉREO PANORÂMICO VIA FM: UMA EXPERIÊNCIA  NO RÁDIO PAULISTA E BRASILEIRO

“Ainda na década de 1970, na Rádio Difusora FM, uma das emissoras associadas que formavam a Rede de tevê, jornais, revistas e rádio de Assis Chateaubriand, tivemos a oportunidade de fazer uma experiência histórica em termos de dramaturgia radiofônica.

Era superintendente das rádios o radialista Jair Brito, e eu apresentei um projeto para a montagem de uma peça teatral radiofonizada para ser levada ao ar via FM, em técnica inédita de estéreo panorâmico. Isso foi feito com a peça A Ceia dos Cardeais, de Julio Diniz, autor português muito conhecido no Brasil.

O elenco foi formado por atores da melhor qualidade como Rodolfo Mayer, Jayme Barcelos, Percy Aires e Henrique Martins. O aparato técnico foi do Estúdio Bandeirantes, e o técnico operador, David Neto. Na parte musical, a participação do maestro Cyro Pereira.

Rodolfo Mayer, grande ator, lenda do rádio, cinema e TV brasileiros, quase 40 anos depois de ter participado da primeira radionovela do Brasil, atuou em A Ceia dos Cardeais, radioteatro realizado em estéreo FM.

A importância do fato foi o ineditismo da transmissão, porque não havia nada nesse sentido na história do rádio brasileiro.

O texto da segunda experiência foi um original meu feito para homenagear São Paulo. O tema foi Fernão Dias Paes Leme, o lendário bandeirante que buscou as esmeraldas.

Dessa vez, Jair Brito achou que devíamos colocar nomes novos famosos da tevê para aumentar nossas possibilidades de mercado. Carlos Ricelli e Bruna Lombardi, o famoso casal das novelas da TV de então, foram chamados. Vieram também Paulo Goulart, Rodolfo Mayer e Lia de Aguiar.

Não houve continuidade da série porque Jair Brito saiu das Associadas e, logo depois, eu também. Essas experiências ficaram no esquecimento como ficaram outras do nosso rádio, por causa da importância que a tevê teve sempre, desde seu aparecimento.
Está claro que as radiopeças teriam seu lugar na programação radiofônica, mas alguém teria de pagar por isso até que elas fizessem o sucesso que podem ter.

Nossa aventura radiofônica não entrou sequer para os registros históricos como pioneiros do estéreo panorâmico nas transmissões de radiopeças em FM. Caímos na vala comum onde ficam os trabalhos feitos antes do tempo”.

Só quem ouviu na oportunidade essas peças na Rádio Difusora FM pôde sentir o grande diferencial de uma apresentação teatral em transmissão “estéreo panorâmico”. Realçou as trilhas sonoras e destacou os efeitos de contra-regra produzindo um “novo som” nunca antes conseguido em produções do gênero. Isso valorizou ainda mais o excelente desempenho dos atores na interpretação dos textos de Chico de Assis.

Lamentável que a ideia de radioteatro não tenha prosperado em emissoras de FM. O gênero se for resgatado, em formato com peças inteiras, ou seja, histórias de um só capítulo tem condições de alcançar boa audiência na frequência modulada. Que apareçam radiodifusores ousados que invistam em novas experiências na área. Bons escritores e atores é o que não falta.

Já há muito tempo que creio, e continuo acreditando, que o rádio é mágico. A televisão não é ruim, mas o rádio é mágico. Se a televisão tivesse sido inventada antes, a chegada da radiodifusão teria feito as pessoas pensarem: Que maravilhoso é o rádio! É como a televisão, só que nem é preciso olhar!
Bob Schulberg

O passado é importante para compreender e melhorar o presente e para sonhar o futuro.
Tostão, reverenciando antigos craques do futebol em sua coluna de 22/02/2009 (Folha de S.Paulo)

FINAL, DOIS PONTOS:

Sobre o pensamento de Bob Schulberg
Tem muito a ver com o ouvinte acompanhando dramaturgia pelo rádio, veículo imbatível para mexer com o poder da imaginação.

Sobre o pensamento de Tostão
Vale para os jovens. A experiência de antigos profissionais é fundamental no aprimoramento do exercício do trabalho, principalmente dos que escolheram a carreira de radialista ou jornalista.

3 respostas
  1. Liliany Queiroz says:

    Sou arte-educadora e estou planejando minhas aulas para o segundo semestre. To querendo trabalhar a rádio novela com algumas turmas, porém não é tão fácil conseguir bom material sobre o assunto.È áudio das rádios novelas.
    Seria possível vcs me ajudarem com um bom material sobre o assunto?
    Aguardo breve resposta.

    Obrigada pela atenção

    Liliany Queiroz

  2. MONICA MAGNANI says:

    Estou enfrentando problema parecido, Liliany. Gostaria de resgatar a radionovela, mas não encontro textos de qualidade, nem acesso a textos antigos que pudessem ser regravados. Você conseguiu resolver o seu?
    Abraços,
    Mônica Magnani

  3. David Mazzuca Neto says:

    Que beleza de artigo,Jair.
    Sobre a Ceia dos Cardeais eu tenho a gravação, feita no Estudio Bandeirantes, que recuperei a partir de uma fita cassete e remasterizei a qualidade está exelente.Gostaria de oferecer para o seu blog, me diga como enviar.
    Abraços,
    David

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